O avanço do plano chinês rumo a 2035 torna imprescindível que não apenas o Brasil, mas todos os países da América Latina continuem defendendo eficazmente suas indústrias.
MARCO POLO DE MELLO LOPES
A desindustrialização prematura da América Latina, em curso há quatro décadas, tem sido um fenômeno amplamente documentado. Trata-se da perda sustentada de participação da indústria no PIB antes que os países alcançassem níveis avançados de desenvolvimento. A abertura comercial antes que as fábricas locais fossem competitivas em escala global, os déficits de infraestrutura e a valorização cambial são algumas das causas apontadas. Mais recentemente, o “Fator China” confirmou-se como um catalisador desse processo.
O desafiador cenário regional tornou-se ainda mais crítico nos últimos cinco anos, devido à política de Estado Chinês, que aumentou os volumes exportados para todo o mundo por meio de práticas comerciais desleais. Na América Latina, os produtos chineses encontram acesso relativamente fácil, graças a sistemas de defesa comercial pouco eficazes, deslocando indústrias locais já enfraquecidas.
O agravamento da situação coincide com um marco no planejamento estatal da economia chinesa: a elaboração, em 2020, do plano estratégico rumo a 2035, cujo ponto de partida foi o 14º Plano Quinquenal, atualmente em sua fase final. O objetivo do governo chinês para esse período de 15 anos era alcançar um “novo padrão” de crescimento baseado no fortalecimento do mercado interno e na criação de “empregos de qualidade”, com a meta de elevar a renda per capita a níveis de países moderadamente desenvolvidos. Para isso, fortalecer ainda mais sua indústria era um requisito central.
Como resultado, a China consolidou sua liderança global na produção manufatureira. Segundo a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido, na sigla em inglês), a participação chinesa na produção manufatureira mundial passou de 2,8% em 1990, para 32% em 2024, enquanto a América Latina recuou de 9,2% para 5%. A Unido projeta que a China alcançará 45% em 2030.
Em condições normais, os objetivos do 14º Plano seriam difíceis de sustentar diante da desaceleração econômica chinesa, que limita a demanda interna necessária para manter elevados os níveis de produção industrial. Para evitar isso, o Estado Chinês interveio, por meio de subsídios e outros instrumentos, o que permitiu sustentar artificialmente a produção. Isso garante competitividade aos produtos chineses, e facilita que o excedente não absorvido internamente seja direcionado aos mercados externos.
Após a declaração oficial de sucesso do 14º Plano, espera-se que o 15º Plano Quinquenal, aprovado neste mês, siga a mesma direção. Como consequência, o mundo continuará recebendo grandes volumes de importações chinesas, enquanto a indústria latino-americana permanecerá sob pressão.
Diante do avanço das importações, mercados como o dos Estados Unidos e o da União Europeia reforçaram seus mecanismos de defesa comercial. A reação mais contundente veio do governo de Donald Trump que, em 2025, chegou a impor tarifas de 125% sobre os produtos chineses, posteriormente reduzidas após negociações. Na América Latina, o México começou a reagir em 2023, elevando naquele ano as tarifas de importação – por exemplo, sobre o aço – em 25%.
No Brasil, o plano 2035 acelera a perda de participação de mercado da indústria diante dos produtos chineses. Essa situação preocupa a Coalizão Indústria do Brasil, entidade que reúne 14 associações representando setores equivalentes a 43% do PIB industrial brasileiro, a qual tenho a honra de coordenar.
Nos setores incluídos – aço, automotivo, máquinas e equipamentos, plásticos transformados, eletrônicos, brinquedos, calçados e têxteis –, as importações provenientes da China cresceram quase 60% em dólares entre 2022 e 2025.
Diante do avanço do plano 2035, e da continuidade dessa onda exportadora agressiva, a Coalizão Indústria do Brasil defende o fortalecimento das ferramentas de defesa comercial nos setores afetados. Após alguns semestres de reação limitada, o governo brasileiro aprovou medidas para indústrias como a do aço e dos bens de capital. Desde julho, foram aplicadas sete medidas antidumping contra os produtos siderúrgicos chineses.
No entanto, a adoção dessas medidas ocorreu em um contexto de aproximação geopolítica entre Brasil e China, o que é positivo, mas não elimina as preocupações. Se esse alinhamento não for administrado com critério e atenção aos riscos, pode ocultar a assimetria existente entre os dois países em seus fluxos comerciais, e reduzir a firmeza das respostas quando elas se tornam necessárias.
O avanço do plano chinês rumo a 2035 torna imprescindível que não apenas o Brasil, mas todos os países da América Latina, continuem defendendo eficazmente suas indústrias. Nenhum país alcança crescimento sustentado sem um setor industrial forte, capaz de investir, gerar empregos de qualidade e promover a inovação. Ignorar o risco representado pela China implica aprofundar a desindustrialização prematura da região, e afastá-la ainda mais do caminho do desenvolvimento.

Foto: Adri Felden/Argosfoto
*MARCO POLO DE MELLO LOPES é presidente-executivo do
Instituto Aço Brasil, e coordenador da Coalizão Indústria do Brasil.
O artigo originalmente foi apresentado no Jornal La Nación
de Buenos Aires-Argentina, na edição de 22 de abril de 2026,
disponível em:
www.lanacion.com.ar/opinion/el-riesgo-china-para-america-latina-nid22042026








