Em abril, a comemoração do Dia Nacional do Aço enfatiza a importância da liga na economia e na sociedade. Mas o “aniversariante” reivindica alguns presentes melhores no futuro.
Marcus Frediani
No atual estágio de desenvolvimento da sociedade, é impossível imaginar o mundo sem o uso do aço. Nem de longe é exagerado dizer que o ciclo dele é o ciclo da vida, porque está presente nas relações humanas, nos sonhos de consumo, na esperança de cura, na intimidade dos lares e nos ideais de evolução da Humanidade. E, claro, a produção da liga é um forte indicador do estágio de desenvolvimento econômico de um país. Por isso tudo – e não seria errado dizer que por muito mais –, a comemoração do Dia Nacional do Aço, no dia 9 de abril, é tão importante como verdadeira reverência à liga, que construiu o passado, edifica o presente, e nos conduz sempre a um futuro melhor.
E a data da celebração não foi criada ao acaso. Ela foi instituída em homenagem à fundação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em 9 de abril de 1941, durante o governo de Getúlio Vargas, no auge do período conhecido como “Estado Novo”, com o intuito de modernizar o país. Considerada a primeira Usina siderúrgica pesada do Brasil, ela surgiu em um momento crucial no qual nossa economia passava por uma transformação profunda e estratégica rumo à sua industrialização, na tentativa de descolar o estereótipo de que éramos apenas um país exportador de commodities agrícolas e nada mais.
Fator acelerou essa mudança foi a Segunda Guerra Mundial, que já estava em curso, em um momento no qual os países europeus e os Estados Unidos, focados quase que exclusivamente na produção para suprir o conflito armamentista. E, como resultado, o Brasil parou de receber produtos industrializados, passando a ter a necessidade fabricá-los internamente.
EVOLUÇÃO CONSTANTE
Sem dúvida, o ato oficial de fundação da CSN no início da década de 1940 logo ganhou a pecha em “orgulho nacional”. Porém, foram necessários cerca de cinco anos para a produção nacional de aço efetivamente acontecer, com a inauguração de seu Alto-Forno I em 1946, considerado efetivamente o marco inicial da siderurgia moderna no Brasil, e o catalisador de um novo ciclo de crescimento industrial do país. A partir daí, a CSN se tornou a primeira produtora integrada de aços planos em território brasileiro, reduzindo a dependência externa e impulsionando a produção nacional.
Porém, foi só em 1950 que a produção em larga escala da usina, com todas as suas linhas funcionando, conseguiu elevar a fabricação brasileira de aço bruto para 788 mil toneladas, triplicada já no início dos anos 1960. E. a partir daí, o processo deslanchou, com a chegada de novas siderúrgicas. Em 1962, a Usiminas foi inaugurada em Ipatinga/MG, com participação japonesa. No ano seguinte, veio a Cosipa, em Cubatão/SP, e no final da década de 1970, teve início a construção da Açominas, em Ouro Branco/MG, que, entretanto, só começou a operar em 1986.
Fato marcante nessa trajetória se deu particularmente nos anos da década de 1990, com o movimento de privatização de todas as gigantes da siderurgia nacional, como foi o caso da Usiminas (1991), da Acesita (1992), da CSN (1993), da Cosipa (1993) e da Açominas (1997), que foram vendidas para aumentar sua competitividade, modernizar a produção e reduzir a dívida pública, resultando em maior produtividade, criando um ponto de inflexão na reestruturação da economia brasileira, marcando a transição do modelo estatal para a iniciativa privada.
Com resultado da dinâmica de evolução do setor siderúrgico brasileiro, já nos anos 2000, alguns marcos emblemáticos foram as inaugurações da Aço Verde do Brasil (AVB) – a primeira siderúrgica carbono neutro do mundo –, em 2015, localizada em Açailândia/MA; a aquisição da ThyssenKrupp CSA do Rio de Janeiro pela Ternium Brasil, em 2017; e ainda diversas aquisições do Grupo ArcelorMittal, como a Votorantim Siderurgia, em 2018, apenas para citar alguns exemplos das dinâmicas que aconteceram e continuaram a acontecer na sequência até os dias atuais.
REFLEXÕES NECESSÁRIAS
Com tudo isso, o Brasil se tornou o maior produtor de aço da América do Sul e figura entre os principais fabricantes globais de aço bruto, movimentando valores bilionários, e empregando milhares de pessoas.
Contudo, a indústria do aço no Brasil, ao longo dos últimos anos vem enfrentando um cenário, caracterizado pela queda na produção nacional, redução nas vendas e um forte aumento nas importações, principalmente da China, que chegam a preços absurdamente menores e, por tabela, mais competitivos. Tal situação tem feito as usinas locais a operarem abaixo de sua capacidade nominal, resultando em cancelamento de investimentos e temores de desindustrialização. E isso, evidentemente preocupa, colocando uma nuvem escura que quebra o clima de comemoração do Dia Nacional do Aço, levando a algumas reflexões.

Abimetal-Sicetel
“Essa celebração é um momento oportuno para avaliar, com realismo, as condições em que a cadeia produtiva do aço opera hoje no Brasil, especialmente no segmento de processamento. O aço segue como um insumo essencial para a atividade industrial, presente nos mais diversos setores. No entanto, sua relevância também exige atenção aos elos que sustentam essa cadeia. E o processamento, responsável por transformar o material em produtos com especificações técnicas adequadas, é um desses pontos-chave. Só que, ao mesmo tempo, é também um dos mais pressionados”, destaca Ricardo Martins, presidente da ABIMETAL-SICETEL, reiterando que o avanço das importações de produtos já transformados, especialmente provenientes da China, está entre os principais fatores a exercer tal pressão.
E ainda segundo o executivo, os impactos vão além do desempenho imediato do setor. Há efeitos sobre o emprego, sobre o nível de atividade industrial e sobre a própria integração da cadeia, que passa a operar de forma mais fragmentada, com impactos que se distribuem desde a produção siderúrgica até os segmentos consumidores. E isso, sem falar nos desafios estruturais relevantes, tais como custos elevados, complexidade regulatória e um ambiente tributário oneroso fazem parte do contexto em que a indústria opera.

“Por isso, considero que o debate sobre o aço precisa avançar. Não basta reconhecer sua importância: é necessário discutir as condições concretas de produção e transformação no país. A busca por maior equilíbrio concorrencial não é uma agenda setorial, mas uma condição para a sustentabilidade da indústria. E o Dia Nacional do Aço pode e deve cumprir esse papel de reflexão. Se houver avanços nesse sentido, será possível preservar a capacidade produtiva e manter a indústria ativa. Caso contrário, o risco é de continuidade de um processo de perda de competitividade que já apresenta sinais claros”, alerta Martins.
BIOINOVAÇÃO APLICADA
No Dia Nacional do Aço, é também importante reforçar que o presente e futuro da siderurgia passam pela integração entre eficiência industrial e sustentabilidade. Na Aço Verde do Brasil, essa transformação começa na origem do processo produtivo, com uma base florestal estruturada, bioinovação e o uso do biocarbono como insumo renovável.

“Esse modelo nos permite operar com cerca de 0,02 tonelada de CO₂ por tonelada de aço produzido, frente a uma média global próxima de 1,89 tonelada, o que posiciona a AVB entre os benchmarks da siderurgia de baixa emissão no mundo. Trata-se de um resultado construído a partir de decisões estruturais, com controle da cadeia e integração entre floresta, energia e produção”, sublinha Ricardo Penido de Azeredo, superintendente comercial da empresa.
Nos últimos anos, a AVB avançou em termos de base florestal com tecnologia e escala. Seu viveiro já produz cerca de 6 milhões de mudas por ano, com meta de alcançar 12 milhões, sustentando ganhos de produtividade sem necessidade de expansão proporcional de área. Adicionalmente, Iniciativas como melhoramento genético, irrigação e uso de bioinsumos reforçam a eficiência e a estabilidade do sistema.

“Acreditamos que o Brasil tem uma oportunidade concreta de liderar
essa agenda, combinando vocação florestal, tecnologia e
capacidade industrial, atendendo setores que prezam cada vez
mais por uma produção que impacte menos o planeta. O aço
verde já é uma realidade, com escala e competitividade, e tende a
ser cada vez mais central na transformação da siderurgia global”, finaliza Azeredo.








