A Coalizão Industria defende a implementação de uma agenda em favor da recuperação da competitividade sistêmica e do mercado interno, além de aumentar a capacidade do setor de contribuir para o crescimento do país.
Henrique Pátria
Apresentando dados que comprovam que a indústria nacional vem “descendo a ladeira” de forma acelerada – apesar de já ter sido protagonista central do desenvolvimento brasileiro –, presidentes de diversas entidades reunidos na capital paulista, sob o manto da Coalizão Indústria, lançaram um “Manifesto” com pontos considerados essenciais para a recuperação e, sobretudo, para o crescimento sustentado da indústria nacional. A participação do Brasil no cenário mundial é ainda mais preocupante: ano após ano, nas últimas décadas, nossa fatia na produção global tem diminuído de forma contínua.


Criada em 2018, a Coalizão Indústria reúne setores que respondem por 44,8% do PIB industrial, e por 60,6% das exportações de manufaturados no Brasil, gerando 48,6 milhões de empregos diretos e indiretos, e recolhendo cerca de R$ 500 bilhões em tributos por ano. Entre os segmentos que compõem a entidade estão calçados, vestuário, siderurgia, máquinas operatrizes, automotivo, construção civil, cimentos, brinquedos e outros. Dos 12 setores representados, oito projetam crescimento inferior a 4% em 2026, enquanto dois já preveem retração. Em 2025, seis cresceram abaixo de 4%, e cinco registraram queda. Segundo o IBGE, o PIB da indústria de transformação e a produção industrial recuaram 0,2% no ano passado.
Diante desse quadro, a Coalizão Indústria, que é coordenada por Marco Polo de Mello Lopes, presidente-executivo do Instituto Aço Brasil, defende a implementação de uma agenda voltada à recuperação da competitividade sistêmica e ao fortalecimento do mercado interno, frente ao fraco desempenho de 2025 e às perspectivas pouco animadoras para 2026. Entraves históricos, somados a problemas agravados nos últimos anos, têm corroído a capacidade do setor de impulsionar o crescimento nacional. A entidade apresentou ainda um levantamento que confirma o papel decisivo da indústria de transformação: nos últimos 76 anos, o Brasil cresceu acima de 4% em 32 ocasiões, e em 80% delas a indústria foi o motor do PIB, avançando em ritmo superior ao crescimento geral.
Outro ponto destacado é o desequilíbrio da balança comercial. O país tem priorizado a exportação de produtos primários (minérios e grãos), que retornam em forma de bens acabados, transferindo empregos para os países que nos vendem tais itens prontos. A Associação de Comércio Exterior do Brasil, integrante da Coalizão, projeta novo déficit comercial recorde na balança de manufaturados em 2026, estimado em US$ 146,4 bilhões.


Entre as principais iniciativas defendidas, estão o controle dos gastos públicos – medida que irá contribuir para a redução das taxas de juros –, a diminuição imediata do chamado “Custo Brasil”, bem como a criação de um sistema abrangente e eficaz de defesa comercial contra importações predatórias.
Ainda de acordo com a Coalizão, a situação tende a se agravar diante da concorrência desleal de produtos importados, sobretudo da China. O país asiático adotou a indústria como motor de crescimento, e direciona seu excedente ao mercado global, encontrando espaço em economias nas quais os mecanismos de defesa comercial não conseguem conter o avanço predatório.
Manifesto pela aceleração do crescimento sustentado do Brasil
A Coalizão Indústria, composta por associações nacionais de diversos setores da indústria e do comércio exterior que, juntos, respondem por 44% do PIB industrial do Brasil, vem a público apresentar propostas concretas para que o país volte a crescer de forma acelerada e duradoura.
Os brasileiros não podem se conformar com o ritmo atual de crescimento do país. As projeções mais recentes indicam que o PIB deve crescer apenas cerca de 1,8% em 2026, com a indústria de transformação avançando apenas 0,5%. Esse desempenho é insuficiente para gerar empregos de qualidade, elevar a renda da população e melhorar os indicadores sociais.
A Coalizão Indústria defende que o país alcance um patamar de crescimento sustentado do PIB de, pelo menos, 3,5% ao ano nos próximos cinco anos. Esse ritmo é factível, já foi alcançado em outros períodos da história recente e é fundamental para inserir o país de volta em uma trajetória de desenvolvimento.
Para atingir esse objetivo, é essencial aumentar fortemente o investimento produtivo. O ambiente de negócios no Brasil afasta e posterga investimentos necessários para o país crescer e se desenvolver. Hoje, o custo de capital é um dos mais elevados do mundo, o que trava a expansão das fábricas, a modernização tecnológica e a capacidade de competir tanto no mercado interno quanto nas exportações.
Para destravar o investimento, são necessárias quatro mudanças prioritárias e interligadas:
Primeira: equilibrar efetivamente as contas públicas. Enquanto o déficit fiscal permanecer elevado, a taxa de juros real continuará alta, encarecendo o crédito e desestimulando qualquer projeto de longo prazo. Com contas arrumadas, será possível preparar o terreno para se chegar a custos de capital mais competitivos e iniciar a redução do alto peso da carga tributária sobre os brasileiros.
Segunda: reduzir o custo do capital para níveis próximos aos dos países concorrentes. Empresas que produzem no Brasil enfrentam custo de financiamento muito superior ao de concorrentes na Ásia, no México ou no Leste Europeu. Enquanto isso não mudar, o investimento continuará migrando para outros lugares. São necessárias condições de crédito que permitam às empresas brasileiras competir em pé de igualdade.
Terceira: avançar na simplificação tributária e tornar a carga compatível com a de nossos principais concorrentes internacionais. A reforma tributária recentemente aprovada, que unificou tributos sobre o consumo e foi amplamente defendida pelos setores industriais, representa um passo importante na direção da simplificação. No entanto, a carga tributária sobre a produção e os investimentos ainda permanece muito elevada. É preciso completar esse esforço com redução da cumulatividade remanescente e maior desoneração dos investimentos, para que a indústria brasileira não continue carregando desvantagem estrutural em relação aos concorrentes globais.
Quarta: garantir equidade competitiva com os países que disputam o mercado com o Brasil. A China se consolidou como a fábrica do mundo e, por meio de subsídios estatais e condições especiais de produção, tem direcionado seu excesso de capacidade para vários países, inclusive o Brasil. Essa situação se agravou com as mudanças geopolíticas dos últimos anos e vem causando danos reais em diversos setores industriais, com produtos importados a preços que não são compatíveis com os custos normais de produção. Outros países daquela região estão trilhando os mesmos caminhos.
Para viabilizar e estimular os investimentos no país, é essencial usar, com agilidade, os instrumentos disponíveis que deem segurança ao investidor e assegurem uma concorrência leal. Não se trata de fechar o mercado, mas de criar condições para que produzir no Brasil seja uma decisão competitiva e atrativa.
Além dessas quatro frentes, é fundamental flexibilizar a legislação trabalhista para alinhá-la à nova realidade do mundo empresarial. A indústria passa por uma grande transformação, com incorporação acelerada de novas tecnologias, automação e modelos de produção mais ágeis. Essa mudança precisa ser compatibilizada com os novos hábitos dos jovens que entram no mercado de trabalho, que buscam maior flexibilidade, desenvolvimento pessoal e equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Atualizar as regras trabalhistas é essencial para atrair e reter talentos qualificados na indústria.
Essas medidas — contas públicas equilibradas, juros mais baixos, tributação competitiva, equidade no comércio e modernização das relações de trabalho, garantindo que seja mantido o conceito já aprovado de prevalência do negociado sobre o legislado — não são pedidos setoriais. Elas são condições básicas para que a indústria volte a ser a alavanca do crescimento brasileiro.
Quando a indústria investe e se expande, gera empregos formais com salários acima da média, capacita mão de obra, aumenta as exportações de maior valor agregado e amplia a arrecadação sem elevar alíquotas. É o caminho mais direto para melhorar os indicadores sociais de forma sustentável.
A Coalizão Indústria apresenta essas propostas com base na experiência diária de quem produz, emprega e compete todos os dias. Trata-se de proposições factíveis e que dependem essencialmente de escolhas claras de política econômica.
A indústria brasileira está pronta para crescer, inovar e contribuir muito mais com o Brasil. O que falta é o ambiente que permita isso acontecer na escala necessária para o desenvolvimento do país.
É necessário agir com rapidez. Neste ano, em que já enfrentamos dificuldades devido às altas taxas de juros, ao endividamento elevado das famílias e das empresas, e também ao aumento dos custos de insumos, energia, frete e outros fatores, para todos os setores da economia, como consequência dos conflitos no Oriente Médio, o sentido de urgência se torna ainda maior. Sem ação decidida, corremos o risco de comprometer de maneira irreversível os próximos anos.








