Fernando Baldin*
Existe uma curiosidade na história da Fórmula 1 que ajuda a explicar um dos maiores equívocos sobre inteligência artificial, em que nos anos 70, uma equipe independente disputava uma temporada inteira com pouco mais de uma dúzia de pessoas. Com a evolução da tecnologia, como telemetria, sensores, simulações e sistemas cada vez mais sofisticados, esse cenário mudou completamente. Hoje, uma escuderia de ponta reúne mais de 800 profissionais para colocar apenas dois carros no grid.
Isso mostra que a tecnologia não reduziu equipes, mas aumentou a especialização e é exatamente essa conversa que deveríamos ter sobre inteligência artificial.
Grande parte do debate ainda gira em torno da substituição de pessoas, com manchetes destacando quantos empregos desaparecerão, enquanto a discussão mais relevante deveria ser sobre como o trabalho está sendo transformado.
Toda grande revolução tecnológica alterou a composição da força de trabalho, por exemplo, a mecanização reduziu atividades manuais, mas expandiu a indústria, a informática eliminou tarefas burocráticas, mas criou profissões inteiras, e a internet substituiu modelos de negócio e abriu mercados completamente novos. Com a IA, os sinais apontam para uma dinâmica semelhante.
Os dados mostram uma transformação, não uma substituição
Um estudo recente da fintech Ramp em parceria com a Revelio Labs, empresa especializada em inteligência de mercado de trabalho, cruzou dados reais de investimento em IA, obtidos por meio de pagamentos corporativos, com o histórico de contratação de mais de 21 mil empresas americanas. O resultado mostrou que as organizações que mais investiram em IA ampliaram seu quadro de funcionários em cerca de 10% nos dois anos seguintes, enquanto as vagas de entrada cresceram 12%. Já as empresas com baixo investimento praticamente não alteraram seu ritmo de contratação.
O mesmo estudo ainda ressalta que isso não significa que a IA, sozinha, cria empregos. Muitas dessas empresas já eram maiores e cresciam antes da adoção da tecnologia. O ponto é que as organizações que conseguem transformar a IA em estratégia de negócio, o investimento em inteligência artificial tem caminhado junto com expansão das equipes.
Mas essas vagas são diferentes das que existiam antes, já que perdem espaço as funções baseadas apenas na execução de tarefas repetitivas e ganham importância profissionais capazes de validar respostas produzidas por agentes inteligentes, auditar decisões de modelos, desenhar processos híbridos entre automação e IA interpretar erros e estabelecer governança. Quanto mais inteligente a tecnologia se torna, mais importante passa a ser o julgamento humano.
O desafio agora é formar os profissionais da nova era
Outro efeito pouco discutido é que a IA não acelera apenas tarefas, mas também decisões. Projetos são concluídos mais rápido, análises ficam prontas em minutos e o ciclo entre ideia e execução diminui drasticamente. Isso aumenta a necessidade de pessoas capazes de definir prioridades, avaliar riscos e transformar velocidade em resultado.
Foi exatamente isso que aconteceu na Fórmula 1, os carros ficaram mais rápidos e por isso, as equipes precisaram de mais engenheiros, estrategistas, analistas de dados e especialistas. Com a inteligência artificial, o movimento tende a ser semelhante.
A pergunta mais importante não é quantos empregos desaparecerão, mas se teremos profissionais qualificados para acompanhar a velocidade que a IA está impondo aos negócios. Porque, historicamente, quando uma tecnologia muda o nível do jogo, as empresas não deixam de contratar, elas passam a contratar pessoas diferentes.

*Fernando Baldin é Country Manager LATAM da AutomationEdge que é uma
fornecedora de soluções de Hyperautomação, Robotic Process Automation
e IT Automation. Conta com diversas certificações de alto nível, como ITIL V3
Expert, ITIL Manager e HDI KCS, além de atuar como membro do conselho
consultivo estratégico do Help Desk Institute.
Fonte: Comunicação Vertical comunicacaovertical@comunicacaovertical.com.br







