Não existem receitas “mágicas” para sair da crise da COVID-19. Nesse cenário, viver o dia a dia, mantendo boas expectativas para o futuro, parece a melhor saída.
Marcus Frediani
Não é preciso ser guru para saber que a crise no setor industrial brasileiro é estrutural, aspecto que, sim, persiste há décadas, mas que passou a se tornar mais claro num momento até recente, quando o país ensaiou uma retomada para começar a superar os impactos dos efeitos da crise subprime norte-americana. Em outras palavras, bem antes do início da tragédia social e financeira da COVID-19.
E nada “melhor” do que a pandemia poderia atestar essa constatação acachapante quanto a pandemia do novo coronavírus, que, além de mudar radicalmente o cenário de expectativas – que, no final de 2019, apontavam para um aparente crescimento contratado da economia brasileira –, também mergulhou o Brasil e o mundo todo numa das mais sombrias épocas de sua história recente.
“Nesse contexto, não se trata mais de quais países e setores de atividade serão afetados por esse choque, mas dos (pouquíssimos) que serão poupados. […] Em 2020, […] espera-se que 68 países entrem em recessão, em comparação com apenas 11 no ano passado […] mesmo que a atividade econômica seja retomada no 3º trimestre, sem uma segunda onda da COVID-19 no 2º semestre deste ano. […] Por fim, a pandemia deve trazer muitas consequências políticas, sendo a mais óbvia o aumento, no curto prazo, das tensões geopolíticas existentes”, projeta, de forma nada animadora, o Barômetro de Risco País e Setorial publicado pela Coface, empresa-líder mundial em seguros de crédito comercial, publicado no último dia 6 de abril.
Desventuras em série
E de que forma particularmente o Brasil tende a ser atingido por esse imbróglio? “Serão vários os impactos sobre a economia brasileira, a começar pelas exportações e a balança comercial em geral. Somos muito dependentes de exportações de commodities, bem como das encomendas chinesas. Como resultado da crise da COVID-19, os preços e a demanda por produtos brasileiros vão cair. A indústria local de alta tecnologia também deverá enfrentar problemas, pois tem a China como o seu principal fornecedor de componentes”, registra Antonio Corrêa de Lacerda.
Na análise pelo economista, nem em uma situação de normalidade a defesa do ajuste fiscal e as reformas seriam suficientes para estimular a retomada do crescimento econômico brasileiro. Segundo ele, insistência em um ajuste fiscal só vai aprofundar a crise, porque cortar gastos reduzirá a demanda efetiva e, por tabela, a receita do Estado, gerando desequilíbrio, e não ajuste fiscal. “E se é para haver desequilíbrio fiscal, o melhor a fazer é ampliar os gastos públicos, especialmente em investimentos, como aqueles em infraestrutura, programas sociais, educação e saúde. Essa é a receita tradicional e mais viável para combater a crise”, pontua.
Acerca disso, Lacerda sublinha outras iniciativas prioritárias para evitar o desaquecimento da economia doméstica, tais como a continuidade dos cortes na taxa Selic, bem como a adoção de medidas que garantissem a efetiva redução dos juros aos tomadores finais, a fim de aquecer o crédito, incluindo a tomada de empréstimos para capital de giro pelas empresas e o consumo de forma geral.
E, na leitura do economista, a adoção de tais condutas não deverá conspirar para um eventual repique da inflação, nem mesmo tendo a forte desvalorização do real em relação ao dólar: “A atual crise tem viés nitidamente deflacionário, apesar do comportamento recente do câmbio. Em algum momento mais à frente, o real vai se recuperar. Está claramente havendo um overshooting da taxa do dólar no Brasil. Os juros e a Bolsa em baixa contribuem para isso, é claro, mas há muita especulação com a moeda. Não acredito que esse nível de preço veio para ficar, e também não creio que a volatilidade vá durar pensando no decorrer deste ano. Ou seja, teremos mais desvalorização, sim, mas não entendo que isso vá se consolidar. De resto, como a demanda no mercado interno – que já não é das mais intensas – tende a cair, não haverá espaço para o crescimento da inflação”, finaliza o presidente do Cofecon.