A indústria do aço

Com a pandemia da COVID-19, a indústria siderúrgica nacional praticamente involuiu 25 anos em sua história.

Marcus Frediani

Infelizmente, o estágio da indústria nacional do aço é de UTI, que, embora impulsionado abrupta e intensivamente pela pandemia do coronavírus. “Os resultados de 2019 frustraram nossas expectativas, uma vez que não tivemos uma retomada do crescimento econômico nas proporções e velocidade que eram previstas”, comentava à Revista Siderurgia Brasil – Sergio Leite de Andrade, presidente do Conselho Diretor do Instituto Aço Brasil, já no último mês de janeiro deste ano, ainda quando o “furacão” da COVID-19 tinha ventos de tempestade tropical.

 

Contudo, o cenário piorou – e muito – desde aquela época. E já em abril último, cristalizou uma situação de total desespero para os fabricantes de aço no país. Por conta da pandemia da COVID-19, as vendas despencaram tanto, que retrocederam ao patamar de 1995, ou seja, de 25 anos atrás. Os grandes clientes, como fábricas de autopeças, automóveis e de máquinas e equipamentos, pararam de fazer pedidos, pois estavam paralisando suas operações. Outros consumidores – como aqueles da construção civil, da infraestrutura e da linha branca – também reduziram demanda a níveis praticamente insuportáveis.

“Estamos vivendo uma crise de demanda com uma profundidade nunca vista antes”, registrou Marco Polo de Mello Lopes, presidente-executivo do Instituto Aço Brasil em entrevista ao Valor Econômico, no dia 24 de abril. Segundo ele, as usinas de aço no país estão operando com 41% da capacidade instalada, um terço menor do que os 62% que estava no início do ano. “Se consideramos que 80% é o nível de uma operação saudável para essa indústria, estamos na metade disso”, lamentou Lopes.

Quedas substanciais

Com efeito, segundo o balanço recente da entidade, a produção brasileira de aço bruto foi de 8,0 milhões de toneladas no acumulado do primeiro trimestre de 2020, o que representa uma queda de 7,0% quando comparada com o ocorrido no mesmo período de 2019. Em relação aos laminados, a produção de 5,7 milhões de toneladas equivale a uma retração de 2,6% comparativamente aos mesmos meses de 2019. Já a produção de semiacabados para vendas totalizou 2,1 milhões de toneladas, 9,5% inferior ao registrado no mesmo período de 2019 (NE: Devido a uma perda que ocorre durante o processo produtivo do aço, a soma da produção de laminados e semiacabados para vendas não equivale ao total da produção de aço bruto).

Ainda segundo o Instituto Aço Brasil as vendas internas atingiram 4,5 milhões de toneladas de janeiro a março de 2020, apresentando uma queda de 0,7% em relação aos mesmos meses de 2019. Já o consumo aparente nacional de produtos siderúrgicos somou 5,1 milhões de toneladas nos três primeiros meses de 2020. Comparando com o mesmo período do ano anterior, houve queda de 0,6%.

Enquanto isso, as importações caíram 15,4% no acumulado de 2020, comparativamente ao mesmo período do ano anterior, totalizando 519 mil toneladas. Esse volume resultou em US$ 563 milhões de importação, uma redução de 10,8% na mesma base de comparação. Complementando negativamente o quadro, as exportações atingiram 3,2 milhões de toneladas e US$ 1,6 bilhão nos primeiro trimestre de 2020, o que representa queda, respectivamente, de 1,3% em volume e de 16,2% em valor na comparação com o mesmo período de 2019.

Piora à vista

E, segredo nenhum, as perspectivas para a indústria do aço no segundo trimestre de 2020 são ainda mais sombrias. De acordo com Marco Polo de Mello Lopes, o recuo deste período sobre os três primeiros meses do ano deve orbitar os 40%. Com isso, a previsão para o ano é de 20% de queda nos negócios ou de uma cifra ainda maior, caso haja uma demora na implementação de um plano de retomada da economia brasileira. “No cenário de hoje, um dia é curto prazo, uma semana médio e um mês é longo prazo”, registrou na reportagem do Valor Econômico.

Além da perspectiva de baixo consumo em função da suspensão dos negócios imposta pela pandemia, a projeção do presidente executivo do Instituto Aço Brasil leva em consideração também a paralisação e/ou desmobilização de vários altos-fornos anunciada por empresas como Usiminas (dois), Gerdau (um) e ArcelorMittal (dois), bem como de outros à base de carvão vegetal, além de uma aciaria e laminação de Cubatão, ambas da Usiminas. No segmento de aços longos, material usado na construção civil e imobiliária, ArcelorMittal e Gerdau desativaram várias fornos elétricos e laminações de aço.

“A crise de demanda é dramática e o setor já enfrenta 20% de inadimplência de clientes, com muitos postergando pagamentos de faturas por mais de 180 dias”, afirmou o executivo ao Valor, citando, inclusive, o caso da Petrobras, que tem poder de acesso a crédito, mas está impondo postergação de entregas e pagamentos para o início de 2021. E vale lembrar que isso tudo, somado ao empoçamento dos recursos que os grandes bancos deveriam repassar em créditos às empresas, cria o cenário de “tempestade perfeita” para um futuro cada vez mais incerto para as usinas.

Esses temas, aliás, foram discutidos em reunião por videoconferência entre representantes da Coalizão Indústria – grupo de 13 setores da indústria de transformação do país – e o ministro da Economia, Paulo Guedes, na tarde do dia 23 de abril, com o intuito de encontrar soluções para o enfrentamento da crise da COVID-19, bem como para a retomada da atividade econômica.

“A grande prioridade para o país é o combate à pandemia, porque saúde é o bem maior; e a segunda prioridade é o emprego”, destacou Lopes, enfatizando que o que se busca não é uma retomada do zero para 100%, da noite para o dia, mas uma definição de volta da atividade planejada e com segurança. “Contudo, se houver muita demora na implementação desse plano, o risco é de uma crise social em massa”, fez questão de registrar o presidente-executivo do Instituto Aço Brasil.

Comércio global

No âmbito internacional, o aumento da retórica protecionista ao longo do planeta em 2019 – bem como pelo primeiro declínio do comércio global em dez anos, em dezembro último –, já antecipava quedas significativas no fluxo de negócios ao redor do mundo. Assim, mesmo antes da crise da COVID-19, prenunciava uma tendência mundial e duradoura à qual as empresas precisariam se adaptar, ao largo de um cenário de graves incertezas que já não oferecia grandes perspectivas de recuperação em 2020.

A Coface antecipa que o comércio internacional crescerá apenas 0,8% em 2020. É improvável que o acordo de trégua entre os Estados Unidos e China restaure a confiança das empresas ou aumente significativamente a indústria e o comércio mundial, especialmente porque apenas 23% das medidas protecionistas tomadas entre 2017 e 2019 afetam os Estados Unidos ou a China. O aumento do protecionismo é, portanto, uma tendência global e duradoura à qual as empresas precisarão se adaptar.

Ato contínuo, as incertezas relacionadas ao ambiente protecionista também contribuem para a volatilidade dos preços das mercadorias, particularmente os da agricultura, metais e petróleo. De acordo com os modelos de previsão do mais recente Barômetro Coface – empresa-líder em seguros de crédito comercial e serviços especializados adjacentes, incluindo factoring, cobrança de dívidas, seguro de risco único, bonding e informações, publicado no dia 20 de abril, os preços do aço continuarão caindo ao redor do planeta nos próximos seis meses, penalizando as empresas do setor, especialmente porque o crescimento na China, que responde por metade da demanda global da liga – deverá atingir apenas 5,8% este ano.

Dessa forma, a avaliação de risco do setor de metais foi rebaixada em cinco países, incluindo Estados Unidos e Itália. Além disso, ainda segundo o levantamento da Coface, o baixo nível contínuo de preços do petróleo, apesar das incertezas geopolíticas – e agravado pela crise do coronavírus – deverá exercer forte pressão no mercado internacional, prejudicando alguns produtores endividados, principalmente nos Estados Unidos.