Carlos Jorge Loureiro, presidente do INDA, fala da atualidade da distribuição do aço no Brasil, e dá preciosas pistas sobre as direções a serem seguidas para a melhoria da performance da cadeia siderúrgica no Brasil.
Marcus Frediani
Quem conhece Carlos Jorge Loureiro, presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço – o INDA –, sabe não só de sua competência na direção da entidade, como também de seu espírito sempre combativo na defesa dos interesses, pleitos e reivindicações do setor. Dono de um espírito crítico afiado e de um estilo preciso e objetivo de manter seus pontos de vista, ele está sempre antenado às questões que envolvem a dinâmica do setor, acompanhando de perto todos os seus passos, em busca de soluções para vários dos problemas e contingências que giram em torno dele.

Assim, em mais esta entrevista exclusiva que concede à revista Siderurgia Brasil, ele divide com nossos leitores, sem meias palavras, suas opiniões e visão esclarecedoras sobre a atualidade da distribuição de aço no Brasil, incluindo entre elas uma análise relacionada à intensa e crescente invasão dos aços chineses no Brasil. Acompanhe e tire suas próprias conclusões.
Siderurgia Brasil: Loureiro, recentemente o INDA apresentou dados positivos de crescimento de compras, vendas e estoques de aço na distribuição das empresas associadas à entidade. Qual a perspectiva de fechamento para 2024?
Carlos Jorge Loureiro: De janeiro a setembro deste ano, já estávamos com crescimento acumulado de 2,7%, e nossa perspectiva atual de fechamento de 2024 orbita a cifra de 3%, mesmo considerando o fato de que, no mês de dezembro os números tradicionalmente são mais baixos, mas que ainda deverão ser superiores aos de dezembro de 2023. De forma geral, nossa perspectiva é que este último trimestre registre um crescimento em torno de 3% em relação ao último trimestre do ano passado.
E a capacidade de processamento do setor, em que cifra se encontra atualmente? Há muita ociosidade entre os associados do INDA?
Bem, falar em capacidade ociosa pura é um pouco relativo. Mas, se pegarmos a capacidade com processamento, de maneira geral estamos trabalhando com 60% a 70% dela.
Nesse cenário, o quadro da distribuição está definido, ou seja, as usinas têm o seu lugar com suas distribuidoras próprias? E aquelas que trabalham com aços importados?
O que existe hoje é uma coisa mais ou menos estabilizada. As usinas têm a sua participação, mantendo o mesmo nível dos últimos seis, sete anos, e os distribuidores independentes seguem mais ou menos com o mesmo tamanho. Com relação aos distribuidores importadores, O que acontece é que alguns daqueles que são fortemente importadores, não participam da rede INDA, não temos muitas informações. Sabemos, entretanto, que há alguns com queda, mesmo com o crescimento das importações dentro do consumo aparente. E com eles não aumentando os seus números, a participação conhecida dos distribuidores associados ao INDA que importam cai um pouco, tanto que a gente estima que, particularmente, o crescimento destes está orbitando algo em torno de 3%, o que cria dúvidas sobre os fatos de que eles estejam crescendo em torno de 8% ou 9%, como vem sendo divulgado por algumas fontes.

Ainda acerca do assunto das importações, parece haver problemas “na nave” com o desempenho do novo regime de cotas de importação de aços, principalmente pelos NBMs de fuga. Há alguma coisa que possa ser feita para contornar essa situação? Se todos os aços importados fossem taxados em 25%, isso poderia solucionar a questão?
Dois mil e vinte e três foi um ano de explosão de importações de aço. E o problema continua, em 2024, porque os dados atualizados de janeiro a setembro demonstram que nossa importação de aços planos, que o INDA acompanha, está chegando quase a 16% acima dos índices acumulados para o mesmo período em 2023. E, dado ao volume de material que a gente tem informação que está nos portos provavelmente esse número vai continuar alto, com uma grande chance de fecharmos 2024 com uma cifra de entrada de aço estrangeiro no país de acima de 10% no comparativo ano com relação ao ano passado. E isso é um contrassenso, na medida em que as cotas foram criadas para tentar barrar e diminuir tais importações. Ou seja, apesar das cotas, em vez de diminuir, elas estão aumentando.
Como, então, isso poderia ser sanado?
Bem, isso deixa claro para mim que a única maneira de se solucionar o problema não é criar impostos de importação, e sim barreiras comerciais, principalmente para o aço chinês, e instalar processo de dumping mostrando que eles o estão entregando aço abaixo de seu preço e custo. Não é necessário “reinventar a pólvora”.
Por que você tem essa convicção?
Ora, porque o aço chinês é feito do mesmo jeito como o aço é feito no Brasil, ou seja, com carvão e minério. E se pegarmos os preços dessas duas commodities hoje (1), e os somarmos, veremos que para se fazer uma tonelada de aço custa, tanto aqui, como na China, algo em torno de US$ 290, sendo que estamos falando de preço de minério “Posto Porto”. Assim, uma usina que está no interior da China, assim como no Brasil, ainda têm que arcar com o frete do porto até a usina. E, no caso específico da China, o preço do carvão é “Posto Austrália”. Então, as usinas de lá têm que pagar dois fretes: o da Austrália para o porto chinês, e do porto até lá dentro do país, sem falar do frete do aço acabado da usina até o porto de novo, que é custo de carregamento. E isso sem falar de outros custos, como os de mão de obra, de energia, e de outros componentes, como ligas, além dos custos de investimento, depreciação etc. Dessa forma, em cima desses US$ 290, como é possível os chineses fecharem a conta vendendo o material a US$ 490(2), como está acontecendo agora? Parece brincadeira, mas se você pegar esses números e der para o seu filho de nove anos de idade, ele ia falar para você: “Ô pai, tem dumping aí!”. Ou seja, não precisa ser nenhum gênio ou expert para constatar isso. E some-se a isso o fato de que entre 85% a 90% do aço acabado que entra no Brasil é chinês: porque não entra de outro lugar? Daí, como eu falei, o único jeito de se resolver o problema dessa maré de aço chinês invadindo o Brasil falei é criar barreiras à importação dele.

Realmente, tem coisa estranha aí.
Pois é. Tanto que o último processo de antidumping que foi aberto e fechado – o de folhas metálicas – estabeleceu agora o preço de US$ 250 por tonelada. Então, analisando as importações chinesas pelos preços que eles estão praticando, isso vai criar uma taxa antidumping, que vai fazer com que as importações delas da China diminuam substancialmente. Assim, não adianta passar o imposto de 10% para 25%: o que precisa ser feito é abrir processos antidumping, que, aliás, já estão sendo abertos no momento. E embora eles demorem em torno de seis meses entre a abertura e a decisão, o tempo está correndo. Por conta disso, o sentimento das usinas é de que, provavelmente, entre o final de 2024 e começo de 2025, já se tenham decisões finais relacionadas a esses processos. E só assim é que, realmente, vai ser criada uma barreira eficiente e bem maior contra a entrada de aços importados da China no Brasil.
Ainda nesse sentido, algo que também preocupa é o brutal crescimento de aços chineses entrando por Manaus e pelos portos do Nordeste, como os de Recife e Fortaleza. Isso também não “fura” a questão de cotas? Até porque, embora se saiba que as cotas não servem para todo o Brasil, a capita do Amazonas e esses portos regionais, afinal de contas, estão dentro do território nacional, não é mesmo?
Bem. Manaus não resolve, porque ele é isento de imposto. Mesmo que se criasse imposto de 25%, isso não iria resolver a questão para lá. E se isso acontecesse no Nordeste, isso iria criar um sério problema de competitividade para aquela região do Brasil.
OK! Mas a questão é: esses aços chineses descarregados em Manaus e nesses portos conseguem chegar aos centros consumidores – tais como Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo – com preços competitivos? O frete não encarece esses aços?
Bem, hoje temos a Aço Cearense e a Amazonaço, que são duas grandes empresas que fazem o Norte e o Nordeste, competindo com a rede de distribuição local, bem como as de Minas Gerais, Goiás, e até em alguns casos, com as do interior de São Paulo. Só que eles chegando a esses mercados com preços competitivos porque eles têm a vantagem do imposto. Ou seja, eles faturam com o imposto cheio, e recolhem com 2% ou 3%, dependendo do caso. Além disso, elas ainda têm a vantagem do ICMS, imposto no qual possuem um regime especial de alíquotas.
Qual a projeção do INDA para o setor de distribuição de aço em 2025?
O que acontece nas projeções da distribuição é parecido com o que acontece nas projeções de crescimento da economia. No começo do ano os economistas falam que ela vai crescer 1,5%, e no final diz que ela vai crescer 3%. No consumo de aço seria um pouco isso. Mas não existe crescimento de aço se não houver crescimento da produção industrial. Então, ele vai depender dela. Mas acredito que o ano de 2025 será um ano melhor do que 2024. Com isso a gente vai ter um crescimento melhor, e com isso a gente vai ter um crescimento de novo no ano que vem.
Mesmo com todas as oscilações, questões e problemas que você levantou, como você avalia a importância do papel da distribuição para a cadeia do aço hoje em dia? Ela continua mantendo o seu protagonismo?
Olha, com relação à nossa rede, embora a gente possa conviver com a alternância de movimentos de crescimento e queda de crescimento de um setor em relação a outros, a distribuição não é uma atividade consentida. Ela só existe porque sem a distribuição de aço não haveria condições de se abastecer o mercado. Fazendo um paralelo, é basicamente o mesmo que acontece com uma rede de combustíveis, que existe não porque tem um pessoal que está ganhando dinheiro distribuindo, e sim porque sem a distribuição você teria grandes dificuldades em atender ao mercado inteiro. Então, a distribuição de aço existe no mundo inteiro, existe no Brasil e vai existir sempre. Pode ter uma hora um pouco mais de presença de usinas, uma hora um pouco menos, mas, como eu disse, ela não é uma atividade consentida, e sim uma atividade absolutamente necessária.
(1) | (2) – NOTAS DO EDITOR: Esta entrevista foi realizada no dia 31.10.2024, com números atualizados para a data.