A partir de uma reflexão autoanalítica, Claudio Flor, presidente da Divimec, fala sobre o papel do empreendedor nos dias de hoje.
Marcus Frediani
Como já dizia Tom Jobim, “O Brasil não é para amadores”. E quando o assunto é empreender em nosso país, a frase, que calça como uma luva no momento atual da indústria nacional. Ao longo das últimas décadas, o Brasil se manteve fiel a esse mantra, e não faltam episódios para nos lembrar quão volátil é o ambiente dos negócios e do empreendedorismo em nosso país, marcado por momentos de altos e baixos na economia e pela insistente perpetuação da insegurança política e jurídica.
Sem dúvida, fazendo uso livre de outra paráfrase relacionada àquela do saudoso Tom, desta vez cunhada em 1979 pelo cantor amazonense Chico da Silva no título de sua famosa canção “É Preciso Muito Amor”, para vencer os desafios que travam o nosso desenvolvimento – tais como o verdadeiro “Manicômio Tributário” instalado por aqui, além de juros e câmbio em níveis estratosféricos, controle inflacionário recorrentemente fora das metas, bem como o famigerado “Custo Brasil”, uma “jabuticaba” muito nossa –, ano após ano continuam incompreensivelmente a nos assombrar.

Só que amor não basta, como sabiamente deixa claro em mais esta entrevista exclusiva à revista Siderurgia Brasil, o diretor-presidente da gaúcha Divimec Tecnologia Industrial, Claudio Flor, a partir de uma análise de seu próprio papel nesse contexto. É preciso muito mais. Confira, e tire suas próprias conclusões.
Siderurgia Brasil: Claudio, o que significa hoje “empreender” no Brasil?
Claudio Flor: Bem, acerca disso creio que o ideal é eu fazer uma reflexão autoanalítica para tentar explicar o que penso. E começo com uma constatação: quando consultamos os objetivos de um empreendedor ou empresário, a gente se depara com diferentes metas de vida. Será que o que nos move é orgulho? O resultado monetário, ou seja, o dinheiro? Ou, então, o reconhecimento da sociedade? Creio que não é nada disso. Um empreendedor se move em função do objetivo de vida traçado por ele próprio ao longo dos anos. Ninguém chega muito longe se não tiver algo interno, como a capacidade de idealizar, de coordenar e de realizar com motivação e resiliência, como uma visão de longo prazo. E isso vale para todos nós.



Mas os incentivos externos também têm o seu valor nessa equação. Ou não?
Na verdade, eles não nos motivam, apenas nos dão apoio e condições para melhor suportar os percalços de ser empreendedor. Estímulos passageiros passam, mas a verdadeira motivação vem de dentro, aquilo que nos toca profundamente, e que somente nós sabemos. Cada pessoa é diferente da outra, e tem os seus motivos individuais – muitas vezes secretos –, mas sempre vindos de sua própria vontade. Então, somente esses motivos são capazes de nos sustentar por tanto tempo em busca da conquista de nossas metas e dos nossos desejos. Somente os empreendedores são capazes de suportar tantas adversidades e riscos, sem desistir, em busca do que tanto planejaram. Assim, para chegarmos mais longe, precisamos ser insaciáveis pelos melhores resultados em nossos negócios, sem esquecer das nossas nas relações gerais com a família e, por extensão, com a própria sociedade.
Sendo assim, quais as habilidades que o empreendedor tem que desenvolver?
Trata-se de um conjunto. O empreendedorismo exige que tenhamos desenvolvidas habilidades individuais e de grupo específicas. Algumas delas são estarmos conectados, muito presentes e atentos aos nossos sentimentos e tudo que ocorre à nossa volta. Isso também significa não termos medo de dar fluxo a novas ideias e inovações. Em outras palavras, para julgar ou transformar, precisamos estar libertos de padrões, criando a possibilidade de analisarmos sempre as possibilidades de construirmos algo novo, que valorize e respeite novas maneiras de pensar.
Mas isso implica gerar rupturas, o que, às vezes, assusta.
Sim, sem dúvida. Mas é exatamente aí que está a chave da transformação do mind set do empreendedor. E ele precisa gerar rupturas com certa ousadia e visão de propósito, deixando a zona de conforto para definir claramente os desafios e não congelar a solução. Para tanto, ele precisa ser disciplinado e aprender muito rápido, mantendo sempre a flexibilidade para até cometer erros e admiti-los, o que também exige muita resiliência para se fortalecer ante cada dificuldade, e sempre estar pronto para um recomeço. Isso é o que nos faz, efetivamente, sermos protagonistas de nossas próprias histórias, entendendo tudo que deixamos para trás.

Contudo, a sociedade muitas vezes entende a questão dos “erros e acertos” de um empresário com certa desconfiança, porque, além de ele ser um gestor de negócios, é também um gestor de pessoas, de suas vidas e de suas famílias. E cometer erros – embora corrigindo a direção da empresa depois – pode ser interpretado como um risco muito grande.
Não. Isso se trata de um exercício de aprendizado extremamente necessário, ao qual os empreendedores não podem se furtar para promover o bem da coletividade. Interpretações? Bem, existem muitas. Como já dizia Sir Winston Churchill “Muitos olham para o empresário como um lobo a ser caçado. Outros, o veem como uma vaca a ser ordenhada. E poucos o enxergam como o cavalo que puxa a carroça”. Então, liderar uma empresa exige sempre manter o pulso firme independentemente de como suas ações podem ser interpretadas. Em outras palavras, ele tem que fazer e manter a confiança naquilo em que acredita.
SOBRE MERCADOS, CONCORRÊNCIA E COMPETIVIDADE
Maior fabricante do país de máquinas equipamentos para processamento e beneficiamento de bobinas de aço – mais de 230 linhas – para o mercado brasileiro, e forte atividade exportadora para a Argentina, Chile, Peru, Paraguai, República Dominicana e México, a Divimec é referência de qualidade e produtividade. E Claudio Flor, diretor-presidente da empresa, quem atualiza a situação do mercado em que opera e os principais desafios que enfrenta.MERCADOS E DOUTRINAS – “O mercado interno está avançando muito lentamente, isto porque os incentivos governamentais ainda são tímidos, como são os exemplos da depreciação super acelerada e as deficiências do Finep, entre outros. Os equipamentos da Divimec têm tido grande aceitação pelo grau de automação, produtividade e qualidade que estão compensando as carências de mão de obra brasileira, que não recebe um incentivo por meio de cursos ou escolas técnicas, e ainda uma remuneração meritória, seguindo um modelo idêntico ao das autoridades mandatárias da massa asiática, replicando um caminho também percorrido pelos governantes dos países que atendemos na área das exportações que aderiram à mesma doutrina e carecem da mão de obra.”
CONCORRÊNCIA E COMPETITIVIDADE – “Nosso mercado tem players definidos com os europeus e chineses. Nesse sentido, a Divimec ainda é uma opção intermediaria avançada para o investidor que depende do aumento da eficiência dos processos com redução de custos, aliada ao aprimoramento contínuo da competência dos colaboradores, assegurando a evolução da força de trabalho com segurança operacional. Os americanos começaram a entrar no nosso mercado com o advento do Aço de Alta Resistência e Baixa Liga (ARBL), o novo boom da Indústria Metalúrgica dos Estados Unidos e alguns países da Europa, tais como Suécia, Alemanha e Itália, entre outros. Por sua vez, a China, que não era pobre, e sim miserável em 1990, vem avançando em ritmo assustador: ela aumentou 36 vezes seu PIB em 30 anos, enquanto os Estados Unidos levaram 115 anos para fazer o mesmo. Então, temos muitas razões para nos preocupar, e ainda muita lição de casa para fazer aqui no Brasil.”