O Brasil pode liderar a transição para uma siderurgia de baixas emissões, mas precisa do fortalecimento de políticas públicas que valorizem essas práticas sustentáveis.
Sandro Raposo*
Historicamente, a siderurgia é uma das indústrias mais intensivas em emissões de carbono sendo responsável por cerca de 7% das emissões globais de CO₂, de acordo com a Worldsteel Association. Com o avanço do Acordo de Paris e a crescente pressão por metas de neutralidade até meados deste século, surge uma questão: descarbonizar a siderurgia é uma utopia ou uma realidade próxima? A resposta, embora complexa, indica um cenário cada vez mais factível, especialmente diante da evolução tecnológica e do potencial brasileiro nesse contexto.
Grandes grupos siderúrgicos internacionais já definiram compromissos de redução de emissões, estabelecendo metas para 2030, e mirando a neutralidade líquida até 2050. No entanto, o percurso para alcançar esses objetivos requer uma profunda transformação, que envolve o desenvolvimento e a adoção de tecnologias disruptivas, mudanças estruturais nos processos produtivos e investimentos significativos. O hidrogênio verde é frequentemente apontado como uma solução definitiva, sobretudo como agente redutor nos altos-fornos, substituindo o carvão mineral. Mas, seu uso em larga escala ainda enfrenta obstáculos importantes relacionados à competitividade econômica, à infraestrutura e à disponibilidade em diferentes mercados, especialmente fora dos centros industriais mais desenvolvidos.
Diante dessa realidade, soluções alternativas, tecnologicamente maduras e economicamente viáveis, tornam-se protagonistas. O Brasil, por sua vez, possui um diferencial competitivo, que é a possibilidade concreta de substituir o carvão mineral pelo carvão vegetal renovável, oriundo de florestas plantadas e manejadas de forma sustentável. Essa abordagem, se conduzida sob rigorosos padrões ambientais, e associada a certificações de origem, transforma um processo historicamente emissor em uma operação de baixíssima pegada de carbono. Além de mitigar as emissões, essa rota produtiva fortalece a bioeconomia nacional, gera empregos em áreas florestais, e promove o desenvolvimento sustentável de territórios, especialmente no interior do país.
Naturalmente, além do uso de biomassa renovável, a jornada para uma siderurgia de baixas emissões passa também pela incorporação de outras tecnologias complementares. A eletrificação de processos com base em fontes renováveis é um caminho promissor para reduzir ainda mais a pegada de carbono das operações. A captura e o armazenamento de carbono, por sua vez, surge como solução estratégica para processos que ainda hoje dependem de fontes fósseis, e cujas emissões são difíceis de eliminar completamente. A busca por eficiência energética, apoiada pela digitalização e automação dos processos produtivos permite otimizar o consumo de recursos, reduzir perdas e, consequentemente, minimizar as emissões. A economia circular também desempenha papel fundamental nesse contexto, com o incremento do uso de sucata metálica como matéria-prima, diminuindo a necessidade de novos processos redutores, contribuindo para a sustentabilidade da cadeia como um todo.

O Brasil possui condições únicas para liderar a transição para uma siderurgia de baixas emissões. O país conta com vasta disponibilidade de terras para florestas plantadas, detém expertise reconhecida internacionalmente em manejo florestal sustentável, e dispõe de uma matriz elétrica majoritariamente renovável, fator essencial para a eletrificação dos processos industriais. Além disso, temos capacidade tecnológica comprovada na implementação de processos baseados em biomassa, e um mercado interno expressivo, que, combinado à força exportadora do setor, oferece condições ideais para escalar soluções sustentáveis e competitivas para o mercado global.
O fortalecimento de políticas públicas que reconheçam e valorizem essas práticas sustentáveis, que estimulem mecanismos de precificação de carbono e ampliem o acesso a financiamentos verdes, pode acelerar significativamente essa transição. Trata-se de uma oportunidade econômica e de uma responsabilidade estratégica: o Brasil pode, e deve, assumir o protagonismo global na descarbonização da siderurgia.
A baixa emissão de carbono no setor siderúrgico, portanto, já não é mais um tema restrito ao campo das utopias ou das especulações futuras. Ela é uma realidade tangível, em plena construção, sustentada por iniciativas pioneiras que demonstram, na prática, que é possível conciliar produtividade e preservação ambiental. O desafio global, naturalmente, é enorme, mas a experiência brasileira comprova que existem caminhos viáveis, sustentáveis e competitivos.

Neste momento, a pergunta que devemos fazer não é “se” a descarbonização da siderurgia será possível, mas “quem” está efetivamente disposto a liderar essa transformação. O Brasil reúne todas as credenciais para assumir essa liderança global, e nós temos o orgulho de mostrar ao mundo que é plenamente possível produzir aço com responsabilidade, inovação e visão de futuro.
*Sandro Raposo é diretor de Sustentabilidade e Novos Negócios da Aço Verde do Brasil.










