Ainda açodada pela invasão dos importados, a situação da indústria siderúrgica brasileira começa a conviver com outro grave problema: a redução das exportações pelo tarifaço dos Estados Unidos.
Marcus Frediani
Pano pra manga, e até pra um enxoval inteiro. A decisão do governo norte-americano de impor o tarifaço às importações para os Estados Unidos já gerou – e continua gerando – impactos profundos no comércio global.
No Brasil, os impactos se intensificaram no fim de julho, de forma atípica e dolorosa. Exportadores correram para embarcar suas cargas antes da data fatídica — inicialmente marcada para 1º de agosto — enquanto diversos embarques, inclusive de itens siderúrgicos, foram suspensos para evitar perdas. O cenário gerou confusão e atropelos, agravados pela burocracia alfandegária e pela infraestrutura precária dos portos e do transporte aéreo nacional.
Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), 77,8% das exportações brasileiras para os EUA — principal destino da indústria de transformação nacional — enfrentam tarifas adicionais, resultado de medidas protecionistas do governo Trump. As sobretaxas variam entre 10% e 40%, somadas às alíquotas de 25% e 50% previstas na Seção 232 do Trade Expansion Act. Produtos como aço, alumínio, cobre, veículos e autopeças são os mais afetados, comprometendo a competitividade brasileira.

A situação das exportações siderúrgicas permanece incerta. A qualquer momento, tudo pode mudar — e, infelizmente, para pior. No dia 30 de julho, o governo norte-americano divulgou uma lista com cerca de 700 produtos brasileiros excluídos da nova tarifa de 40%, que se somaria aos 10% já anunciados, totalizando 50%. A entrada em vigor do tarifaço foi adiada para 6 de agosto, gerando alívio parcial. Ainda assim, todos os produtos brasileiros serão taxados: os da lista com acréscimo de 10%, os demais com 50%.
A exclusão não foi fruto de negociação diplomática. No decreto, o governo Trump acusou autoridades brasileiras de coagir empresas americanas a censurar discursos políticos, entregar dados de usuários e alterar políticas de moderação sob ameaça de sanções. A declaração gerou forte reprovação do Planalto, especialmente porque muitos dos itens de aço excluídos não são produzidos nos EUA, tornando as exportações brasileiras essenciais para a indústria local.
Apesar das tensões, a indústria brasileira do aço mantém postura prudente e conciliatória, esperando que as negociações avancem. O Instituto Aço Brasil, em nota de 1º de agosto, comentou a Ordem Executiva americana de 30 de julho, que formaliza o acréscimo de 40 pontos percentuais na reciprocidade tarifária. A entidade entende que a nova taxa não incidirá sobre o aço brasileiro além dos 50% já decretados em junho.

“O Aço Brasil acompanha os desdobramentos e mantém a expectativa de retomada das negociações para restabelecer o acordo vigente entre 2018 e o primeiro semestre de 2025, que previa cotas de importação para produtos siderúrgicos brasileiros”, afirma o documento. A entidade alerta que apenas a indústria aeronáutica e seus fornecedores serão beneficiados pelas isenções, enquanto os demais setores que utilizam aço como matéria-prima serão prejudicados.
Marco Polo de Mello Lopes, presidente executivo do Instituto, reforçou à imprensa: “Se a nova tarifa não for cumulativa à taxa de 50% já aplicada, nada muda no quadro atual, em que todos os países — exceto o Reino Unido — enfrentam a mesma barreira tarifária sobre aço e alumínio.”

EM BUSCA DA TAL COMPETITIVIDADE
Com uma visão estratégica e crítica sobre o cenário atual da siderurgia brasileira, Ricardo Martins, presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Trefilação e Laminação de Metais Ferrosos (Sicetel) e da Associação Brasileira da Indústria Processadora de Aço (Abimetal), avalia como positiva a recente medida do governo Trump que flexibiliza tarifas sobre o aço brasileiro. Segundo ele, essa decisão garante a continuidade das exportações das usinas anteriormente afetadas, preservando o volume necessário para que suas operações internas não sejam interrompidas.
“Sem dúvida, essa redução tarifária atende diretamente aos interesses dos clientes americanos. Apesar da escalada nas tensões diplomáticas entre os dois governos, sigo acreditando na força das negociações comerciais e na pressão que os compradores americanos devem exercer sobre sua administração para aliviar a carga tarifária imposta ao Brasil. No fim das contas, o que realmente importa é o dinheiro que circula no mercado — e quem movimenta esse capital são os players econômicos, não os governos”, afirma Martins.
No entanto, ele alerta que, para os processadores de aço, a elevação de tarifas sobre apenas seis NCMs (Nomenclaturas Comuns do Mercosul) não trouxe os efeitos esperados. O problema estrutural persiste: a importação de produtos de aço já processados continua a prejudicar fortemente a indústria nacional, uma vez que esses itens chegam ao Brasil com preços significativamente inferiores aos praticados internamente.
“Medidas paliativas, como aumentos temporários de impostos de importação ou aplicação de antidumping sobre alguns produtos, não resolvem o cerne da questão. O verdadeiro entrave é a falta de competitividade da indústria brasileira do portão da fábrica para fora. Enfrentamos gargalos históricos: infraestrutura precária, juros exorbitantes, carga tributária sufocante e uma série de ‘Custos Brasis’ que nos colocam em desvantagem frente aos concorrentes internacionais. Precisamos corrigir essas distorções de forma urgente e abrangente, para toda a indústria nacional. Só assim a redução de preços será fruto de maior eficiência e não de artifícios temporários”, reforça o executivo.
Martins também alerta para o risco de desindustrialização. Com o aumento das tarifas e a falta de competitividade, as siderúrgicas podem optar por descontinuar linhas de produção no Brasil ou transferi-las para outros países, o que teria impactos profundos na economia e no emprego. “Não há milagres. Enquanto mantivermos nossas deficiências estruturais, será impossível evitar o enfraquecimento da indústria brasileira. Se continuarmos a retirar da indústria nacional os meios para competir, ela inevitavelmente sucumbirá diante de concorrentes globais muito mais preparados. O minério de ferro que exportamos volta em forma de aço e produtos acabados, mais baratos. Isso escancara que o verdadeiro problema não são os Estados Unidos. O problema é que há anos nos concentramos em disputas políticas e esquecemos de pensar estrategicamente o Brasil”, conclui o presidente do Sicetel/Abimetal.
Para ilustrar essa realidade, Martins cita o exemplo da Gerdau, uma das maiores siderúrgicas do Brasil e da América Latina. Em sua divulgação de resultados trimestrais, o CEO da companhia, Gustavo Werneck, anunciou que os investimentos no Brasil serão reduzidos a partir de 2026. Werneck considera insuficientes medidas como o sistema de cotas-tarifa adotado pelo Governo Federal, e defende ações mais robustas de proteção à indústria nacional. Segundo ele, a resposta governamental tem sido lenta diante de uma crise que se agrava.
A Gerdau mantém a previsão de investir R$ 6 bilhões em 2025, dos quais R$ 4 bilhões serão destinados ao Brasil. No entanto, os aportes dos anos seguintes estão sob revisão. E os efeitos dessa retração já são sentidos: cerca de 1.500 trabalhadores foram demitidos em 2025, reflexo direto da pressão das importações, que hoje representam aproximadamente 25% do mercado nacional, segundo dados da própria empresa.

Nos Estados Unidos, a Gerdau possui forte presença, com diversas unidades de produção de aços longos e especiais, além de realizar investimentos e aquisições para ampliar sua capacidade e participação no mercado local. “Estamos comprometidos com o Brasil, mas precisamos de condições mínimas para competir de forma justa. Não se trata de protecionismo, mas de garantir a sobrevivência da indústria nacional”, finaliza Werneck.
LENTIDÃO QUE ATRAPALHA
Embora não se manifeste diretamente sobre a tarifa dos EUA, a Associação Latino-Americana do Aço (Alacero) ressalta que as questões relacionadas a isso cabem mais ao âmbito político do Brasil. Ainda assim, acende um alerta sobre a situação crítica da indústria da América Latina, impactada pelas distorções do comércio global geradas pela superprodução e pelo sistema de subsídios na China, que afeta produção, emprego e competitividade regional.

Os comentários da entidade, via seu diretor-executivo Ezequiel Tavernelli, são contundentes. Entre 2021 e 2024, a produção de aço bruto na AL caiu 13%. Enquanto isso, a participação do aço laminado importado no consumo total da região atingiu níveis recordes, chegando a 40,3% no 1º semestre de 2025. No período, as exportações chinesas de aço acabado e semiacabado para a região cresceram 233% nos últimos 15 anos, e o aço indireto — contido em produtos finais que incorporam aço, como geladeiras, automóveis e máquinas — aumentou 338% entre 2008 e 2024.
Segundo Tavernelli, para a China “produzir aço e produtos de sua cadeia de valor não é decisão baseada em oferta e demanda, mas sim em gerar emprego e desenvolvimento interno. Para isso, o país promove uma série de subsídios encadeados que lhe permitem vender ao mundo abaixo dos custos reais de produção”. Os subsídios chineses seriam dez vezes superiores aos da OCDE.

Assim, o que está em jogo não é apenas um setor, mas o futuro industrial da América Latina. A cadeia de valor do aço gera 1,4 milhão de empregos de alto valor na região, possibilitando mobilidade social e desenvolvimento econômico sustentável. Contudo, a AL enfrenta o processo de desindustrialização já citado: o PIB industrial regional recuou 4% desde a década de 1990, e a participação de produtos manufaturados nas exportações totais da América Latina caiu 5,3 pontos percentuais, de 52,8% (2000–2009) para 47,2% (2020–2023).
Como antídoto, Tavernelli defende: “Os governos devem agir com mais rapidez e determinação, implementando medidas de defesa comercial que nivelem o campo de jogo e protejam nossas indústrias contra práticas desleais. A América Latina tem talento, recursos e capacidade para desenvolver uma indústria sustentável e competitiva.”
A SOLUÇÃO É SÓ UMA
Carlos Jorge Loureiro, presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aços Planos (INDA), esclarece que o aumento da tarifa de 50% sobre a importação de aço pelos EUA não é exclusivo ao Brasil, mas global. A medida visa fortalecer a indústria local americana, permitindo margens melhores e investimentos futuros para reduzir a dependência externa. No entanto, o país ainda precisa importar placas de aço, já que suas usinas não as produzem, apenas as laminam.

Em 2024, os EUA importaram 3,4 milhões de toneladas de placas do Brasil, representando 60,7% da demanda total. No total, foram 5,6 milhões de toneladas importadas, com o Brasil como principal fornecedor. Nesse período, o preço do aço nos EUA subiu para US$ 1.000 por tonelada, com alta de 40% desde janeiro, tornando o produto brasileiro competitivo mesmo com a tarifa de 50%.
Loureiro destaca que o cenário atual favorece o crescimento das exportações chinesas de aço, inclusive para o Brasil. Hoje, a importação já é o terceiro maior fornecedor do mercado nacional, mesmo com o regime de cotas e tarifas implementado pelo governo em 2024 que não surtiu efeito.
“No meu entendimento, o governo brasileiro já deveria ter tomado alguma decisão com base em medidas mais robustas para resolver isso. Falando de aços planos, temos dois produtos – que são os laminados a frio e galvanizados –, cuja entrada de aços no Brasil já foi identificada pelo MDIC com a existência da prática de dumping, o que exigiria a imposição de medidas mais contundentes como criar uma taxa provisória até se chegar a uma definitiva processo que aliás, aconteceu com a folha-de-flandres”. No entanto, isso ainda não foi feito, e nem o mecanismo de cotas-tarifas conseguiu conter o avanço das importações. As estatísticas do 1º semestre de 2025 mostram aumento de 46% na entrada de produtos chineses em relação ao ano anterior.
Loureiro conclui: “A solução é uma só: criar medidas antidumping.” E aplica-las imediatamente após a constatação.
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26 DE AGOSTO
ABERTURA
09h00 – 09h45
Abertura do Congresso Aço Brasil 2025
Luiz Inácio Lula da Silva – Presidente da República
Geraldo Alckmin – Vice-presidente da República e Ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços
Tarcísio de Freitas – Governador de São Paulo
Hugo Motta – Presidente da Câmara dos Deputados
Fernando Haddad – Ministro da Fazenda
André B. Gerdau Johannpeter – Presidente do Conselho Diretor do Instituto Aço Brasil / Presidente do Conselho de Administração da Gerdau - CONFERÊNCIA MAGNA
09h45 – 10h45
Conferência Magna: A Nova Geopolítica Mundial
Moderador: Jorge Oliveira – Vice-presidente do Conselho Diretor do Instituto Aço Brasil / Presidente da ArcelorMittal Brasil e CEO ArcelorMittal Aços Planos América Latina
Keynote Speaker: Marcos Troyjo – Economista, cientista político e diplomata - INTERVALO
10h45 – 11h15 - PAINEL 1
11h15 às 12h30
Aço – Os Novos Desafios do Comércio Global: Fronteiras e Estratégias
Moderador: André B. Gerdau Johannpeter – Presidente do Conselho Diretor do Instituto Aço Brasil / Presidente do Conselho de Administração da Gerdau
Convidado Especial: Maurício Lyrio – Secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente do MRE
Convidado Especial: Christopher Garman – Diretor para a América – Eurasia - ALMOÇO
12h30 às 14h30 - CONFERÊNCIA ESPECIAL
14h30 às 15h30
Conferência Especial: Brasil – Cenário Econômico e Político
Keynote Speaker: Murilo de Aragão – Cientista Político - INTERVALO
15h30 às 16h00 - PAINEL 2
- 16h00 às 17h30
Nova Indústria Brasil: Perspectivas para os Setores Consumidores de Aço
Moderador: Everton Negresiolo – Conselheiro do Instituto Aço Brasil / CEO ArcelorMittal Aços Longos LATAM e Mineração Brasil e Vice-Presidente da ArcelorMittal Brasil
Keynote Speaker: Uallace Moreira Lima – Secretário de Desenvolvimento Industrial, Inovação, Comércio e Serviços
Debatedores: Eduardo Fischer – CEO na MRV&CO
Antônio Sérgio Martins Mello – Diretor de Relações Institucionais da Stellantis South America e Vice-Presidente da Anfavea
Claudio Brizon – Diretor de Compras e Engenharia da Qualidade do Fornecedor (SQE) da CNH Industrial para a América Latina - COQUETEL & NETWORKING
17h30 às 19h30 - Quarta-feira
27 DE AGOSTO - PAINEL 3
09h00 às 10h00
Transição Energética – Como conciliar Descarbonização e Competitividade
Moderador: Titus Schaar – Conselheiro do Instituto Aço Brasil / CEO da Ternium Brasil
Keynote Speaker: Rodrigo Rollemberg – Deputado Federal
Debatedores: Marcelo Weydt – Diretor do Departamento de Gás do MME
Roberto Muniz – Diretor de Relações Institucionais da CNI
Germano Mendes de Paula – Professor Titular do Instituto de Economia e Relações Internacionais (IERI) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) - PAINEL 4
10h00 às 11h30
Expansão da China no Mercado Global – Riscos - Moderador: Frederico Ayres Lima – Conselheiro do Instituto Aço Brasil / CEO da Aperam South America
Keynote Speaker: William Hess – Co-CEO da PRC Macro Consultoria
Debatedores: Fernando Pimentel – Diretor-Superintendente e Presidente Emérito da ABIT
Igor Calvet – Presidente ANFAVEA
Haroldo Ferreira – Presidente Executivo ABICALÇADOS
José Ricardo Roriz Coelho – Presidente do Conselho da ABIPLAST e do SINDIPLAST - INTERVALO
11h30 às 11h45 - PAINEL 5
11h45 às 13h00
Indústria do Aço: A visão dos CEOs
Moderador: Marco Polo de Mello Lopes – Presidente Executivo do Instituto Aço Brasil
Debatedores: Gustavo Werneck – Conselheiro do Instituto Aço Brasil / Diretor-Presidente e CEO da Gerdau
Jorge Oliveira – Vice-presidente do Conselho Diretor do Instituto Aço Brasil / Presidente da ArcelorMittal Brasil e CEO ArcelorMittal Aços Planos América Latina
Silvia Nascimento – Conselheira do Instituto Aço Brasil / Presidente da Aço Verde do Brasil
Armin Andreas Wuzella – Conselheiro do Instituto Aço Brasil / Diretor Presidente da Villares Metals - ENCERRAMENTO
13h às 13h15
(*)OBS.: Programa sujeita a alterações.










