Como diria o título daquela velha canção, “Não está sendo fácil”. Essa foi a conclusão do atual momento vivido pela siderurgia nacional, durante a realização do Congresso Aço Brasil 2025. E se a indústrias não agirem já, a “coisa” pode piorar.
Marcus Frediani
Nos dias 26 e 27 de agosto, a cadeia do aço no Brasil se reuniu em São Paulo para discutir o panorama atual e as perspectivas de futuro de seus elos no seu mais importante encontro anual do setor, o Congresso Aço Brasil. Em sua 35ª edição, o encontro promovido pelo Instituto Aço Brasil contou com a participação dos principais stakeholders da indústria do aço, além de especialistas e lideranças do cenário econômico e empresarial, com o objetivo de encontrar soluções de enfrentamento dos enormes desafios vivenciados atualmente pela siderurgia brasileira, bem como daqueles que se impõem ao crescimento sustentado do país, em um cenário agravado ainda por incertezas econômicas, levando à revisão das projeções da indústria.
E, como não poderia ser diferente, o clima das discussões foi de intensa preocupação com a queda da produção interna dos laminados e o aumento significativo das importações da liga. E isso já pôde ser observado na abertura do congresso. Tomando a palavra logo após a homenagem a Sergio Leite de Andrade – falecido em julho, que ocupava a presidência do Conselho Diretor do Aço Brasil e a vice-presidência de Assuntos Estratégicos da Usiminas –, André Bier Gerdau Johannpeter, presidente do Conselho do Instituto Gerdau e, agora, eleito presidente do Conselho Diretor do Aço Brasil para o biênio 2025–2027, ressaltou essa crescente preocupação, afirmando que este é o período mais conturbado da siderurgia nacional nas últimas décadas, diante do aumento sem precedentes das importações de aço.

Presentes no ato inaugural do evento, outras autoridades e personalidades ligadas ao setor também se manifestaram a favor de medidas de defesa à indústria brasileira. Foi o caso do deputado federal Arnaldo Jardim, que destacou a aprovação da Lei da Reciprocidade, que permitirá ao Brasil adotar medidas rápidas em resposta à imposição do tarifaço dos Estados Unidos. Por sua vez, Armando Monteiro, ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e Conselheiro Emérito da Confederação Nacional da Indústria, ressaltou a resiliência da indústria nacional do aço, ante o atual surto de importações, no palco do evento, que também contou com a participação de Jorge Oliveira, vice-presidente do Conselho Diretor do Instituto Aço Brasil e presidente da ArcelorMittal Brasil e CEO ArcelorMittal Aços Planos América Latina, e de Marco Polo de Mello Lopes, presidente-executivo da mesma entidade.
CRISES EM SÉRIE
Na sequência, teve início a programação oficial do congresso, com a conferência magna conduzida por Marcos Troyo, economista, cientista político e diplomata, que comparou o cenário global a um “corredor polonês” para os países emergentes, citando a guerra comercial entre Estados Unidos e China, os conflitos na Europa e a instabilidade no Oriente Médio, o que fez o mundo sair de uma dinâmica intensiva de globalização para uma de geopolítica, no qual o aço é tão estratégico quanto a energia e a tecnologia.

Já o primeiro painel da 35ª edição do Congresso Aço Brasil reuniu autoridades e analistas para discutir os rumos do comércio internacional e seus reflexos sobre a indústria do aço brasileira. Com o tema “Aço – Os Novos Desafios do Comércio Global: Fronteiras e Estratégias”, os participantes discutiram problemas relacionados tanto à crise do comércio internacional quanto àquela do enfraquecimento do multilateralismo, que exerce impacto direto sobre países emergentes como o Brasil e o setor do aço.
Em seguida, foi apresentada a conferência especial “Brasil – Cenário Econômico e Político”, na qual foram feitos sérios alertas sobre os riscos da instabilidade política, da condução ideológica da diplomacia, e da falta de previsibilidade para o setor produtivo, situação intensificada pela necessidade de se reforçar a importância da estabilidade institucional e da recuperação do pragmatismo diplomático.
Batendo na mesma tecla, o debate sobre a “Nova Indústria Brasil e os Desafios para os Setores Consumidores do Aço” movimentou o último painel do primeiro dia do evento, trazendo para o centro da discussão a necessidade de fortalecer a indústria brasileira diante de um cenário global de instabilidade, concorrência desleal e urgência de integração das cadeias produtivas, para melhorar a competitividade de grandes consumidores de aço, como a construção civil e a indústria automobilística.
TRANSIÇÃO ENERGÉTICA
Já o segundo dia do Congresso Aço Brasil 2025 teve início com uma bateria de questionamentos acerca de como reduzir as emissões de CO2 nos processos industriais no painel intitulado “Transição Energética – Como Conciliar Descarbonização e Competitividade”. O painel destacou situações críticas relacionadas às mudanças necessárias para viabilizar o processo, tais como o alto preço que os clientes e consumidores provavelmente não vão querer pagar para que sejam concluídas, asseverando que, para isso, existe a necessidade de transformar vantagens comparativas em ganhos reais para se manter a competitividade dos produtos no mercado.

Após o almoço, aconteceu o painel “Expansão da China no Mercado Global – Riscos”, trazendo à baila a questão diferenciada de conforto daquele país asiático para a produção do aço mais barato do mundo, graças à existência de grandes incentivos estatais para a produção da liga, mesmo à custa de crescentes problemas relacionados ao aumento dos riscos ambientais, bem como ainda à demissão de grandes massas de trabalhadores com o fechamento de várias fábricas ao redor do planeta, e à situação crítica da crescente invasão de máquinas e equipamentos importados da China no território brasileiro.
A VISÃO DOS CEOS
Encerrando a programação do Congresso Aço Brasil 2025, foi realizado o bastante esperado painel “Indústria do Aço: A Visão dos CEOs”, no qual os líderes brasileiros deixaram claro que o avanço das exportações chinesas tem potencial para travar novos investimentos no país, a partir da redução da capacidade produtiva das usinas siderúrgicas nacionais, algo que só poderá ser solucionado com a criação de um vigoroso plano de contingência para proteger a indústria brasileira do aço, e promover um estágio de maior estabilidade e segurança jurídica para alavancar novos investimentos.

E esse último debate foi encerrado com o pronunciamento do presidente executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes, com a avaliação de que o setor siderúrgico precisa comunicar de forma mais estratégica suas vantagens competitivas, como os aspectos ligados à sustentabilidade do aço nacional, e o impacto econômico da cadeia do aço, por meio do consenso de que o futuro da indústria do aço no Brasil depende de previsibilidade regulatória, agilidade na adoção de medidas de defesa comercial e um ambiente favorável a investimentos de longo prazo.










