MARCUS FREDIANI
A sustentabilidade na siderurgia deixou de ser apenas resposta aos impactos ambientais e tornou-se eixo central da estratégia do setor, impulsionando eficiência operacional, governança responsável e valorização do capital humano, com reflexos positivos diretos para a sociedade.
Quando o tema é sustentabilidade, o aço ocupa posição singular. Trata-se de um material 100% reciclável, que pode ser reutilizado indefinidamente sem perda de qualidade, desde que submetido a processos adequados. Suas propriedades físicas — como resistência e durabilidade — permanecem inalteradas mesmo após sucessivos reprocessamentos. Para assegurar esse padrão, a indústria siderúrgica adota rigorosos controles de qualidade, eliminando impurezas durante a fusão e o refino da sucata, garantindo que o produto final atenda às especificações técnicas exigidas pelo mercado.
Apesar desse atributo estratégico, a produção de aço está entre as atividades industriais de maior impacto ambiental. Dados da World Steel Association indicam que o setor responde por algo entre 7% e 9% das emissões globais de CO₂. A fabricação é intensiva em energia e carbono, com média próxima de duas toneladas de CO₂ emitidas para cada tonelada de aço bruto produzida. A descarbonização dos processos — especial mente aqueles baseados em altos-fornos — tornou-se, portanto, o principal desafio da siderurgia mundial e brasileira.

Nesse contexto, o ArcelorMittal tem assumido compromissos relevantes. A companhia estabeleceu a meta de zerar as emissões líquidas de CO₂ até 2050 e vem implementando no Brasil um conjunto de iniciativas estruturantes. Entre elas estão a otimização da matriz metálica com ampliação do uso de sucata, a substituição parcial do carvão mineral por gás natural, o aumento da utilização de carvão vegetal renovável, melhorias de eficiência energética e investimentos em geração própria de energia renovável. A empresa também opera sistemas de recuperação de calor e reaproveitamento de gases dos processos produtivos, reduzindo desperdícios e emissões.
O avanço mais expressivo ocorreu na área de energia limpa. Em parceria com a Casa dos Ventos, foram investidos R$ 5,8 bilhões em projetos eólicos e solares na Bahia, somando 553,5 MW de capacidade instalada. Em outra frente, junto à Atlas Renewable Energy, foi construída em Paracatu (MG) a usina fotovoltaica Parque Luiz Carlos, com investimento de R$ 895 milhões e capacidade de 315 MWp, reforçando o suprimento de energia renovável às operações.
E, segundo Marina Soares, diretora Jurídica, de Relações Institucionais e Sustentabilidade da ArcelorMittal Brasil, em janeiro de 2026, a estratégia ganhou novo impulso com contrato firmado com a IGAR, do Grupo SADA. A parceria envolve processamento de sucata, criação de entreposto logístico e gestão integral do transporte até as usinas. O eixo central é a economia circular: transformar resíduos em matéria-prima de alto valor agregado, reduzindo a pegada de carbono e preservando recursos naturais, em linha com a demanda global por aço de menor intensidade de emissões.
O compromisso ESG também se estende à cadeia de suprimentos, com exigência de adesão ao Código de Fornecimento Responsável, gestão de riscos socioambientais e cumprimento de certificações internacionais. Na dimensão social, a Fundação ArcelorMittal consolidou, em 2025, a Liga STEAM, estratégia nacional voltada à formação de jovens protagonistas, conectando educação aos desafios reais dos territórios onde a empresa atua. Soma-se a isso o Programa de Diversidade, Equidade & Inclusão, estrutura do nas dimensões de gênero, raça e etnia, pessoa com deficiência e LGBTQIA+.
“VERDE”, EM TODOS OS SENTIDOS
O compromisso com a agenda ESG também é um dos pilares estratégicos da Aço Verde do Brasil (AVB), integrante do Grupo Ferroeste. Com sede em Açailândia (MA) e operação iniciada em 2015, a empresa tornou-se referência internacional ao estruturar um modelo industrial baseado na integração entre produção siderúrgica, base florestal própria e inovação tecnológica. Foi a primeira usina do mundo a produzir aço carbono neutro, operando sem combustíveis fósseis em seu processo produtivo.

Segundo Silvia Nascimento, CEO da companhia, o diferencial está na rota tecnológica adotada. A AVB utiliza biocarbono proveniente de florestas plantadas, associado ao forno elétrico abastecido com energia renovável, reduzindo estruturalmente a in tensidade de emissões. Esse modelo é sus tentado por investimentos contínuos em ciência florestal, biotecnologia e melhora mento genético, com foco no aumento da produtividade por hectare sem expansão da área plantada. A estratégia busca conciliar eficiência econômica, preservação ambiental e segurança energética, sustentando a expansão industrial com uma das menores pegadas de carbono do setor.
Na prática, a operação é integralmente baseada em fontes renováveis. Os altos-for nos utilizam 100% de biocarbono oriundo de eucalipto, eliminando o uso de coque mineral. Na etapa de aciaria, o aço é produzido em forno elétrico alimentado por energia renovável certificada por meio de I-REC. Paralelamente, novos investimentos concentram-se em projetos de infraestrutura florestal no sul do Maranhão, ampliando a produtividade do eucalipto por meio de genética avançada, manejo de precisão e tecnologias de irrigação.
Parte relevante dos aportes também é direcionada à eficiência energética e à eco nomia circular. Entre as iniciativas estão o reaproveitamento de gases dos altos-for nos e da aciaria para geração de energia térmica empregada no aquecimento e na laminação; a geração própria de eletricidade por usina termelétrica movida a gás de alto-forno; o desenvolvimento de unidades automatizadas de carbonização com tec nologia própria, que elevam o rendimento da madeira, reduzem perdas e eliminam emissões de metano; projetos de produção de biochar a partir de resíduos florestais; e a fabricação de briquetes a frio, que reutilizam resíduos sólidos industriais, diminuindo o consumo de minério e biocarbono.
INDO ALÉM DO INSTITUCIONAL
A governança ESG da AVB também se es tende à cadeia de suprimentos. A seleção e gestão de fornecedores seguem critérios ambientais, sociais e de governança alinha dos às políticas internas, às diretrizes do GHG Protocol e às práticas reportadas em seus relatórios de sustentabilidade. O processo de avaliação contempla conformidade legal, regularidade ambiental, respeito às normas trabalhistas, padrões de saúde e segurança, qualidade dos produtos e aderência a princípios éticos, aplicados de forma integral a toda a cadeia.
A gestão de riscos ambientais está integrada à estrutura de governança corporativa e é supervisionada pelo Conselho de Administração, com apoio do Comitê de Governança e Sustentabilidade. Os principais riscos e impactos são identificados por meio de avaliações internas, engajamento com stakeholders e análise de materialidade. As informações consolidadas são divulgadas anualmente em relatório elaborado conforme as diretrizes da Global Reporting Initiative (GRI), padrão internacional amplamente adotado para reporte de sustentabilidade.

Além disso, a empresa mantém inventário de emissões certificado segundo a ISO 14064 e o GHG Protocol, com validação da SGS, bem como auditorias externas regula res em demonstrações financeiras e sistemas de gestão. Estratégias, metas e indica dores são comunicados por meio de canais institucionais e de relações com investido res, assegurando transparência e previsibilidade aos públicos de interesse. No eixo social e de governança, a diversidade é tratada como componente estratégico. O Conselho de Administração conta com participação feminina relevante, e a liderança reúne profissionais de diferentes formações e experiências. Programas contínuos de desenvolvimento, capacitação e avaliação de desempenho criam condições para ampliar a presença de mulheres e de grupos sub-representados em posições de gestão, com base em meritocracia e equidade.
Para a CEO, a sustentabilidade na AVB está diretamente associada ao uso intensivo de ciência, tecnologia e inovação como ativos centrais do negócio. A agenda ESG não é tratada apenas como compromisso institucional, mas como vetor de competitividade. O modelo integra florestas tecnológicas, geração de energia limpa, eficiência industrial e governança robusta, contribuindo para a transição da siderurgia brasileira rumo a uma economia de baixo carbono.
Conjugadas, essas iniciativas demonstram que a sustentabilidade, para a companhia, ultrapassa metas operacionais e se consolida como diretriz estratégica de longo prazo.










