O aumento da resistência mecânica dos novos aços obrigou os fabricantes de equipamentos a rever praticamente todos os conceitos tradicionais de processamento.
Claudio Flor*
A evolução da indústria siderúrgica trouxe ao mercado materiais cada vez mais resistentes, leves e eficientes. Os Aços ARBL (Alta Resistência e Baixa Liga) tornaram-se protagonistas em segmentos como o automotivo, e ainda o de implementos rodoviários, máquinas agrícolas, construção pesada e equipamentos industriais. Entretanto, juntamente com seus benefícios, surgiu um desafio igualmente importante: o processamento destes com controle das Tensões Residuaispresentes intrinsecamente nesses materiais.
Embora muitas vezes invisíveis após a aplainamento (endireitamento) nas tradicionais linhas de corte, tais Tensões Residuaisexercem influência direta sobre a qualidade do produto final. Uma chapa aparentemente perfeita pode apresentar deformações logo após um corte a laser, plasma, ou ainda durante processos de dobra e estampagem, comprometendo as peças finais e o retrabalho corretivo, ou até o descarte, transformando-se em perdas produtivas e aumento de custo.
Assim, compreender esse comportamento deixou de ser apenas um conhecimento metalúrgico para se tornar uma necessidade estratégica na concepção das modernas Linhas de Corte Transversal.
O INIMIGO INVISÍVEL DA PLANICIDADE
As Tensões Residuaissão forças internas que permanecem aprisionadas na estrutura cristalina do aço após processos como laminação, resfriamento e transformações metalúrgicas.
Quando essas forças deixam de estar em equilíbrio, manifestam-se inicialmente na bobina defeitos como o Coil Set (Curvatura Longitudinal), o Crossbow (Encanoamento Transversal), as Ondulações (Bordas ou Centro) da chapa, que se tornam em Tensões Residuaisapós o aplainamento ou processamento em linhas convencionais.
Por terem um elevado limite de escoamento, os aços ARBL têm um comportamento mecânico durante o processamento diferente daquele observado em aços convencionais. Na prática, isso significa que a regulagem das linhas Corte Transversal, adequadas para um aço carbono comum, pode ser insuficiente para um aço ARBL.

ENDIREITAMENTO
Deixar a chapa plana não significa eliminar ou diminuir as Tensões Residuais; O verdadeiro objetivo consiste em provocar uma deformação plástica controlada – além da elástica –, que diminua e redistribua as Tensões Residuais internas, substituindo um estado desuniforme por outro muito mais homogêneo e estável.

Para isso, a indústria utiliza três tecnologias principais:
Temper Mill Line, que promove uma leve laminação da chapa;
Stretch Line, baseada no alongamento controlado do material até atingir a região deformação plástica; e
Leveller Line, processo de flexão alternada da chapa, realizado por rolos endireitadores devidamente calculados e dimensionados.
Cada tecnologia possui vantagens específicas, mas todas compartilham o mesmo princípio metalúrgico de endireitamento da chapa, e a remoção total ou parcial (60 a 80% na espessura) dasTensões Residuais.
AÇOS ARBL
O aumento da resistência mecânica dos novos aços obrigou os fabricantes de equipamentos a rever praticamente todos os conceitos tradicionais de processamento. NasLeveller Lines, os diâmetros dos rolos e o espaçamento entre eles, a penetração progressiva e a capacidade estrutural dos equipamentos, o controle de torque, e a velocidade processamento passaram a exercer influência decisiva sobre a qualidade final da chapa, ou melhor, a quantidade de Tensões Residuais.
Outro fator crítico é a chamada sensibilidade à Taxa de Deformação, ou seja, a velocidade da deformação plástica que deve ser observada para que asTensões Residuais não voltem a se manifestar durante operações posteriores, como corte, usinagem ou conformação.
ENGENHARIA APLICADA FAZ A DIFERENÇA
Ao longo de décadas de atuação, a Divimec desenvolveu um amplo conhecimento no processamento de bobinas de diferentes materiais (aços carbono comuns e de alta liga; aço silício; aço inoxidáveis; e ligas de cobre destinadas aos mais diversos segmentos industriais.

Esse know-how resultou em soluções próprias para sistemas desenrolamento, alimentação, pré-endireitamento, endireitamento por flexão alternada Leveller Line, e corte transversal (sem parar) para os diferentes aços. A empresa também está participando tecnicamente da implantação de uma nova geração de linhas de corte transversais, que combina as tecnologias Stretch Line e Leveller Line, reunindo elevada qualidade planicidade e menor nível de Tensões Residuais.
EVOLUÇÕES
As usinas de aço continuam – e em ritmo acelerado – desenvolvendo novas ligas dos Aços ARBL, o que exige equipamentos mais robustos, sistemas inteligentes de controle, além de recursos avançados de automação, redefinindo assim os padrões de qualidade exigidos pelo mercado. Nesse cenário, o conhecimento metalúrgico deixa de ser um diferencial, e passa a representar um requisito essencial para quem busca produtividade, precisão dimensional e confiabilidade operacional.
Mais do que fabricar equipamentos, a Divimecinveste continuamente em engenharia, pesquisa e desenvolvimento para oferecer soluções alinhadas às demandas da indústria moderna.
Dessa forma, o domínio das Tensões Residuaise o desenvolvimento de tecnologias específicas para o processamento de Aços ARBL demonstram que inovação, conhecimento técnico e experiência prática continuam sendo os principais pilares para transformar desafios metalúrgicos em resultados industriais de alto desempenho.
*Claudio Flor é presidente da Divimec – Tecnologia Industrial uma das principais fabricantes de equipamentos para processamento de aços do Brasil.







