Enquanto se perde tempo discutindo se vale apostar na indústria, a China consolida a liderança mundial em manufaturas.
Marco Polo de Mello Lopes*
A desindustrialização precoce da América Latina chama a atenção não apenas pelas dores causadas aos países afetados em quatro décadas do processo, mas por um incômodo fenômeno paralelo: a existência de uma legião de “especialistas” no tema que não se importam com isso. Ao menos, não como deveriam. Trata-se de um curioso grupo formado por teóricos, muitos dos quais, arrisco dizer, jamais pisaram em uma fábrica, e que detêm um olhar complacente sobre a perda da relevância da indústria como força motriz do crescimento econômico do país.
Para esses, a desindustrialização precoce seria um processo natural e até mais “moderno” em relação ao que pregam cartilhas clássicas sobre expansão econômica. Assim, passou-se a aceitar e, às vezes, até a defender que o motor do Produto Interno Bruto (PIB) de um país seja não sua indústria, mas, sim, um segmento de serviços forte, o que bastaria para uma nação alçar o estágio de renda per capita próxima àquela dos países desenvolvidos, que assim se tornaram no passado justamente com base em suas fábricas.
No Brasil – que viu a participação da indústria de transformação no PIB cair de 35,9% para 13,7% em 40 anos –, tais argumentos são usados para desqualificar os esforços de formuladores de políticas públicas voltados à reindustrialização do país, e à defesa comercial contra importações predatórias. De forma equivocada, tais iniciativas são tachadas de antiquadas, protecionistas e perpetuadoras de ineficiência.
Ignoram convenientemente paradigmas, principalmente da Ásia – como Coreia do Sul, Japão, Vietnã, Tailândia e China –, que apostaram suas fichas na indústria, e colhem crescimento econômico. Ignoram também o “Fator China” como ameaça a manufaturas em todo o planeta. Com seu 14º Plano Quinquenal, lançado em 2020, o governo chinês aumentou a aposta em suas fábricas como motor para elevar o país a um novo padrão de crescimento, com a geração de empregos de qualidade para puxar a renda per capita dos chineses a padrões de países moderadamente desenvolvidos até 2035.
Entretanto, as metas do plano estatal não têm sido compatíveis com a realidade chinesa, já que a economia em desaceleração não tem força para criar demanda doméstica, de forma a absorver toda a produção industrial. Assim, para preservar os objetivos traçados – e para desespero de governos no resto do mundo –, o Estado chinês decidiu subsidiar sua indústria, permitindo que seus produtos fossem vendidos mercados afora abaixo do preço de custo.
Não à toa, Estados Unidos, México e União Europeia, entre outros, têm reforçado suas defesas comerciais para impedir o ataque das importações predatórias chinesas a seus mercados domésticos. No Brasil, acentua-se o ataque das importações desleais, refletido nos sucessivos déficits recordes que vêm sendo registrados na balança comercial de manufaturados, com previsão de atingir inéditos US$ 146,4 bilhões este ano.
A Coalizão Indústria, entidade que representa 44,8% do PIB do setor, dá uma mostra desse drama. Nos segmentos atacados pelos importados – além do aço, também os de automóveis, brinquedos, calçados, eletroeletrônicos, máquinas e equipamentos, têxteis e transformados de plásticos –, as importações chinesas cresceram quase 60% em dólares, entre 2022 e 2025.
No caso do aço, a importação de laminados cresceu 83% em volume no período, sendo 64% desse total proveniente da China. Deve-se reconhecer que, mais recentemente, o governo tem aprovado um robusto arcabouço de defesa comercial para o setor, o que lhe tem trazido expectativa de queda nas importações.
Ato contínuo, enquanto se perde tempo discutindo se vale apostar na indústria, a China consolida a liderança mundial em manufaturas. Segundo a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido), o país elevou sua fatia na produção global de 2,8% em 1990 para 32% em 2024, devendo chegar a 45% em 2030. Enquanto isso, a América Latina recuou de 9,2% para 5% de lá para cá. E desde 1995, o Brasil viu sua participação encolher de 2,8% para 1,17%.
O descaso com a indústria é também míope. Um levantamento da Coalizão Indústria mostra que, em 80% das vezes em que o Brasil cresceu acima de 4% ao ano, a indústria de transformação cresceu acima disso, e puxou o PIB, prova cabal de sua relevância. Assim, a indústria poderia contribuir ainda mais para a expansão econômica do país, porque, dos portões para dentro, ela é competitiva. Para fora, contudo, esbarra no “Custo Brasil”. Mesmo com o baixo crescimento previsto para este ano na maioria dos setores da Coalizão, em razão da perda de mercado, devido às importações predatórias, e da falta de competitividade sistêmica, diante do “Custo Brasil” os investimentos previstos atingirão R$ 1,1 trilhão entre 2026 e 2030.
Então, é de se perguntar se pode o Brasil dar-se ao luxo de deixar sua indústria perder relevância. Medidas que visem ao seu fortalecimento e à recuperação de sua participação no PIB são mais do que defensáveis: são vitais. Não há dúvidas de que somente uma indústria de transformação forte é capaz de acelerar o crescimento do nosso país de forma sustentada, gerando renda, empregos, desenvolvimento, enfim, bem-estar para toda a sociedade.
Marco Polo de Mello Lopes* é presidente-executivo do Instituto Aço Brasil e um dos fundadores da Coalizão Indústria.

NOTA DO EDITOR: Este artigo foi originalmente publicado no Jornal Estado de S Paulo na edição de 01/07/2026.







