O agronegócio brasileiro mantém força produtiva e presença internacional, mas a baixa rentabilidade, o endividamento e o crédito restrito freiam os investimentos em máquinas e implementos agrícolas.
Marcus Frediani
Agronegócio brasileiro vive momento de força produtiva e bom desempenho no exterior, mas também de pressão sobre custos e crédito. E isso vem impactando o setor de máquinas e implementos agrícolas.
Em 2026, o agronegócio brasileiro atravessa um momento marcado por uma combinação de força produtiva, expansão internacional e desafios financeiros cada vez mais complexos. De um lado, o país mantém uma posição de destaque no mercado mundial de alimentos, amplia exportações, e anseia pela busca da produtividade e pelo maior uso da tecnologia. De outro, produtores e empresas convivem com custos elevados, juros ainda restritivos, problemas de endividamento e uma exposição cada vez maior aos efeitos das mudanças climáticas.
O cenário, portanto, está longe de ser uniforme. Enquanto determinados segmentos apresentam desempenho robusto e boas perspectivas de mercado, outros enfrentam margens apertadas e maior dificuldade para acessar crédito. E essa diferença entre produção e rentabilidade é uma das principais características do momento atual do mercado de máquinas e implementos agrícolas brasileiro.
Fomos conversar sobre essa dicotomia – digamos, no mínimo curiosa – com Pedro Estevão Bastos, presidente da CSMIA – Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da ABIMAQ. Confira o que ele nos falou sobre os impactos dela nesta entrevista exclusiva à revista Siderurgia Brasil.

Siderurgia Brasil: Temos visto na Imprensa comentários da ABIMAQ
dizendo de que setor de máquinas e equipamentos agrícolas
não vai indo muito bem atualmente. Quais são os principais motivos disso?
Pedro Estevão Bastos: Bem, o principal motivo é a falta de rentabilidade
do agricultor. Os mercados mais importantes do mercado de máquinas agrícolas
são os de soja e milho, e essas duas commodities, embora estejam com
preços razoáveis no exterior, mas quando se analisa a rentabilidade que produtor
está tendo com esses dois produtos se observa que ela é baixa. E um dos problemas
é a taxa de câmbio, que no ano passado estava na faixa de R$ 6,00 frente ao dólar, agora está na faixa de R$ 5,00, vem diminuindo a rentabilidade do setor. Aliada a essa questão é que os agricultores estão com dificuldade de pagar as contas, com uma inadimplência muito alta. A inadimplência do crédito rural que era de 1% há três, quatro anos, agora está em 7%. Por conta disso, os bancos estão sendo muito seletivos para liberar financiamentos e, se o agricultor não tem crédito dos bancos, ele é obrigado a empregar todo recurso que ele tem para fazer o custeio, E aí sobram menos recursos para ele fazer investimentos, e então o mercado fica bastante restritivo.
Em função disso, como vocês projetam o 2º Semestre para o setor? Há sinais de recuperação?
Bem, no 1º Semestre de 2026, as vendas de máquinas e equipamentos caíram 21%. E não conseguimos enxergar sinais de recuperação no 2º Semestre. Assim, as vendas deverão fechar este ano com 20% a menos. E isso porque o agricultor vai plantar em setembro-outubro a safra de verão, para colhê-la em março-abril do ano que vem. Ou seja, somente a partir dessa colheita é que a gente vai saber se os preços que ele vendeu alcançaram boa rentabilidade da safra e, somente a partir do resultado da safra, o que eles vão fazer em termos de investimentos nesse mercado.
E como entra nessa equação o impacto do aumento da entrada no Brasil dos produtos vindos principalmente da China? Isso tem afetado o crescimento do setor nacional de máquinas e equipamentos?
Eu diria que ainda não. Em 2025, importamos US$ 213 milhões, o que representa apenas 2% do nosso mercado. Ou seja, não é isso que tem feito o mercado nacional de máquinas equipamentos ficar restritivo. Na verdade, o que preocupa é a velocidade da entrada desses produtos da China no Brasil, com um gigantesco salto de valor US$ 42 milhões em 2020, para o montante atual. E se me perguntam se as importações podem aumentar ainda mais, eu digo, podem. Mas esse ainda não é o principal problema do setor que, realmente, continua a falta de rentabilidade do agronegócio em nosso país.
Os juros altos ainda continuam a influenciar a troca de máquinas e equipamentos agrícolas? Em que medida?
Eu diria que os juros não são o principal problema, porque, hoje, existem várias linhas de crédito rural do BNDES, e se analisarmos a atual circunstância do Brasil, os juros para investimentos em máquinas agrícolas não são altos. Por exemplo, existem R$ 10 bilhões em recursos no Move Brasil, com juros de 9%. Depois, há o Moderfrota, voltado para a compra de máquinas, tratores, colheitadeiras e implementos agrícolas, que entre suas duas modalidades “Tradicional”, direcionada a produtores rurais em geral e cooperativas de produção, e “Pronamp”, exclusivo para médios produtores rurais enquadrados no programa, que, juntos, disponibilizam mais R$ 5 bilhões, com, respectivamente, taxas de juros de 12,5% e 11,5%. E existe ainda o Pronaf, destinado a pequenos produtores rurais e agricultores familiares, com mais R$ 2 bilhões a juros a 5% ao ano. Então, somando tudo, temos aí R$ 7 bilhões em recursos abundantes para o agricultor fazer investimentos, embora, é claro, com taxas consideradas elevadas em nível internacional, mas bem menores e atrativas do que aquelas praticadas pelos bancos no mercado brasileiro, que orbitam os 22%, 23%.
Mas têm fundamento as queixas, principalmente de médios e pequenos agricultores, que dizem encontrar muita dificuldade de acesso aos recursos do Plano Safra, assim como dos bancos?
Sim, têm fundamento. Mas, primeiramente, a gente tem que entender que o dinheiro dos investimentos do Plano Safra não é do governo, é dos bancos. O governo simplesmente só coloca o subsídio que é a diferença de taxa entre a taxa que os bancos cobram e o valor estabelecido no Plano Safra. Então, por exemplo, se o banco está emprestando a 15%, que é uma taxa razoável, e o governo cobra 11,5%, os 4% restantes são referentes ao subsídio do governo. Mas o dinheiro principal é do banco, que não vai emprestar para agricultores que estão com capacidade de pagamento baixa. Assim, como existe muita gente inadimplente, o banco não vai emprestar mesmo, como o salto que mencionei aí atrás de 1% para 7%, O que vai acontecer é que o setor tem que se desalavancar, o que demorar uns dois ou três anos para acontecer. Então, não existe solução que possa ser considerada fácil. A única solução é diminuir a carga da dívida, e aí o banco volta a emprestar, porque o agricultor vai voltar a ter capacidade de pagamento.
MÁQUINAS AGRÍCOLAS – COMPASSO DE ESPERA PREOCUPA
A indústria automobilística brasileira mantém sua trajetória de consolidação e acompanhamento dos indicadores fundamentais da produção, vendas e exportações de veículos no país. As edições e relatórios da Anfavea apontam para um panorama de contínuo monitoramento dos volumes e do comportamento do mercado nacional e internacional.
Os dados setoriais e séries históricas disponibilizados pela entidade mostram a relevância das cadeias de suprimento e da demanda interna, destacando o papel estratégico do suprimento de matérias-primas e insumos – como o aço e componentes siderúrgicos – no ritmo de fabricação das montadoras. Além disso, a estabilidade das diretrizes operacionais e o balanço das exportações continuam sendo determinantes para o desempenho econômico do setor.
Contudo, com o recuo de 21,3% nas vendas de máquinas e implementos agrícolas no 1º Semestre, diante da decisão dos produtores de aguardarem o anúncio da continuidade da redução dos juros do novo Plano Safra de 2026/2027, a indústria nacional desses bens segue em compasso de espera.
O atual Plano Safra aumentou o volume total para R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, mas trouxe uma mudança estratégica: o dinheiro para custeio encolheu, enquanto os recursos para investimento subiram para R$ 140,2 bilhões (alta de 38,1%). Nesse cenário, junho e julho, que já costumam ser meses sensíveis para o segmento, o efeito foi sentido principalmente com a expectativa da continuidade da queda dos juros em relação ao ano passado, o que acabou travando as compras.
Nesse sentido, o descolamento entre o mercado consumidor e as fábricas brasileiras é um dos pontos mais críticos apontados pela Anfavea, com as montadoras nacionais reduzindo o ritmo de suas linhas de montagem para ajustar os estoques.
E o resumo disso tudo é que, enquanto o pequeno produtor consegue se modernizar via Pronaf, a indústria nacional de grande porte sofre com juros ainda considerados pesados no Moderfrota. E, para a Anfavea, a possibilidade do possível aumento da concorrência gerada pela entrada do maquinário asiático mais barato no Brasil, embora ainda não muito significativa, continua a ser uma preocupante ameaça ao “esperar para ver” dos fabricantes nacionais.







