Especialistas e executivos se reúnem em São Paulo para traçar os rumos da cadeia do aço frente aos desafios geopolíticos e econômicos globais.
Marcus Frediani
O avanço das importações de aço e de produtos industrializados que incorporam a liga fabricados no exterior acendeu mais um alerta para a indústria brasileira. O tema marcou a 36ª edição do Congresso Aço Brasil, realizada nos dias 29 e 30 de setembro, no Transamérica Expo Center, em São Paulo, reunindo lideranças empresariais, autoridades e especialistas para discutir os desafios da competitividade, os impactos da geopolítica e as perspectivas para o setor siderúrgico no evento – a- abrindo ainda espaço para palestras, painéis e debates sobre temas como Inovação, Tecnologia e Inteligência Artificial, Sustentabilidade, e claro, Política e Eleições 2026 –, tendo novamente como parceiros de mídia o Portal e da Revista Siderurgia Brasil.
Abrindo a programação oficial do evento, André B. Gerdau Johannpeter, presidente do Conselho Diretor do Instituto Aço Brasil e presidente do Conselho de Administração da Gerdau, traçou um panorama da situação atual da indústria. Na ocasião, o evento teve a participação virtual do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, e do Secretário Desenvolvimento Industrial, Inovação, Comércio e Serviços do MDIC Uallace Moreira Lima.

“A Reforma Tributária é um avanço para a competitividade. A simplificação dos tributos sobre o consumo, a desoneração das exportações e o estímulo aos investimentos podem contribuir para melhorar as condições de atuação da indústria brasileira”, destacou Alckmin, ressaltando ainda as medidas de defesa comercial adotadas pelo governo e defendeu iniciativas para fortalecer a indústria local, especialmente setores estratégicos e de base, como a siderurgia.
Em seguida, a conjuntura internacional foi o tema central da conferência magna ministrada pelo economista, cientista político e diplomata Marcos Troyjo analisou a transformação do cenário global, no qual a geopolítica e as disputas comerciais passaram a exercer influência crescente sobre os fluxos de produção e comércio. “Somada à sobrecapacidade industrial chinesa, pode existir a possibilidade de redirecionamento de exportações a mercados que permanecem mais acessíveis, como o brasileiro. E isso deixa claro que as restrições impostas por Estados Unidos e países europeus a determinados produtos chineses têm potencial para ampliar a pressão competitiva sobre outros destinos comerciais”, asseverou.

IMPORTAÇÕES EM TELA
Durante o Congresso, o excesso de produção mundial de aço também foi destacado por André Johannpeter, que estimou essa capacidade excedente em mais de 600 milhões de toneladas, equivalente a aproximadamente metade da produção chinesa. Nesse contexto, existem outros agravantes. Um deles são as tarifas e cotas de importação que vêm sendo sistematicamente adotadas por diferentes países, embaralhando a dinâmica do comércio internacional e, por consequência, gerando impactos nas exportações brasileiras, o que só aumenta a necessidade de estratégias para preservar a indústria nacional do aço.

Outro aspecto relacionado a isso, advém da crescente entrada no Brasil do chamado “aço contido”, presente em produtos importados já industrializados, como automóveis, geladeiras, eletrodomésticos, máquinas e equipamentos. Essa modalidade de importação amplia a concorrência enfrentada pela indústria brasileira, que passa a disputar mercado não apenas com o aço estrangeiro vendido diretamente, mas também com manufaturados produzidos a partir de matéria-prima importada.
“A mudança no perfil das importações exige uma estratégia de defesa comercial que considere toda a cadeia produtiva. Embora reconheçamos avanços nas medidas adotadas pelo governo brasileiro, nossa avaliação é de que ainda há muito a fazer para recuperar o patamar histórico de participação da produção nacional no mercado interno”, ressaltou em uma de suas participações do Congresso Marco Polo de Mello Lopes, presidente-executivo do Instituto Aço Brasil.
ACIMA DA META HISTÓRICA
E a urgência de medidas de retomadas como essas é absolutamente gritante, como tiveram oportunidade de registrar diversos conferencistas durante a realização da 36ª edição do Congresso Aço Brasil, calcadas em projeções bem reais. Por exemplo, o Brasil deverá encerrar 2026 com aproximadamente 4,9 milhões de toneladas de laminados de aço importados, volume significativamente superior à média histórica de 2,2 milhões de toneladas. E considerando ainda as importações indiretas – ou seja, o aço incorporado em produtos industrializados provenientes do exterior –, o total desse aporte poderá alcançar 12,1 milhões de toneladas. E isso mesmo com a perspectiva de que a participação do aço importado no consumo brasileiro deve recuar do percentual de 22%, registrado em 2025, para 18,5% em 2026, continuando a permanecer acima da média histórica de 9,7%.
Contudo, a redução das importações e a criação de condições mais favoráveis à produção nacional podem abrir caminho para uma retomada do setor em 2027. De acordo com a avaliação do Instituto Aço Brasil manifestada no Congresso, a continuidade e o aprimoramento dos instrumentos de defesa comercial, a aceleração dos processos antidumping e o fechamento de brechas que permitam a entrada de produtos em condições consideradas desiguais têm potencial não só para promover o aumento da produção brasileira, como também para gerar quase 20 mil novos empregos diretos no ano que vem. “E proteger a indústria siderúrgica nacional não significa fechar o mercado às importações, mas assegurar condições equilibradas para que as empresas brasileiras possam competir, investir e ampliar sua produção”, destacou Marco Polo.
Em linha com a defesa de uma agenda estrutural capaz de fortalecer a competividade industrial brasileira, André Johannpeter enfatizou que o que o Brasil possui condições para competir internacionalmente, inclusive com a China, mas precisa enfrentar os obstáculos que limitam seu desenvolvimento industrial. E entre os aspectos que podem colocar o país nesse caminho estão a disponibilidade de minério de ferro de alta qualidade, sucata, água e energia renovável, além de um mercado consumidor de aproximadamente 218 milhões de pessoas.

“Para transformar tais recursos em vantagens competitivas, entretanto, é fundamental aperfeiçoar a articulação entre governo e lideranças empresariais, acompanhada de reformas e políticas públicas de longo prazo, contemplando, inclusive, medidas para reduzir o ‘Custo Brasil’, que encarece a produção e dificulta a atividade empresarial do setor, a fim de não só ampliar nossa eficiência produtiva, como também garantir maior previsibilidade ao ambiente de negócios”, destacou, injetando boas perspectivas e confiança no potencial de recuperação da siderurgia nacional, durante o painel “A Visão do CEOs”, que encerrou a programação do Congresso.







