Quais são os cenários possíveis para a economia brasileira no pós-COVID? E como se dará a retomada dos negócios da indústria nacional nesse momento tão ansiosamente esperado? Algumas respostas para essas perguntas já começam a aparecer.
Marcus Frediani
Duas perguntas cruciais que os empresários brasileiros se fazem no momento atual é quanto tempo a crise do novo coronavírus ainda vai durar, e como será, de verdade, o tão falado “novo normal” da economia e da indústria brasileira no pós-pandemia. E, com toda certeza, as respostas de US$ 1 trilhão para cada uma delas são bastante incertas.
Contudo, há quem arrisque alguns cenários possíveis. E esse é o caso da Deloitte, empresa que oferece serviços de auditoria, consultoria empresarial, assessoria financeira, gestão de riscos e consultoria tributária para clientes públicos e privados dos mais diversos setores. Para tentar jogar um pouco de luz sobre o assunto e entender quais foram os principais impactos da crise até o momento e as perspectivas de recuperação dos negócios estabelecidos no Brasil, ela realizou recentemente uma pesquisa inédita com 1.007 executivos de 662 empresas em 32 segmentos de atividades.
E a boa notícia é que os resultados do estudo foram até positivos: 74% dos representantes de organizações entrevistadas acreditam que a recuperação virá entre seis e 18 meses após o fim do confinamento, uma vez que, no entendimento deles, a crise estimulou adaptação rápida das operações a uma nova realidade, com melhoria da maturidade de gestão em várias frentes de negócios. Em outras palavras, embora o levantamento retrate um cenário de impactos sem precedentes nas organizações, revela também uma capacidade de reação rápida da maior parte delas, acelerando mudanças em diversas frentes, a partir de ações já implementadas ou a implementar até junho, dentro do intervalo que compreende cerca de 100 dias após a decretação da pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
“Entre os entrevistados de setores que apostam numa retomada mais rápida, no período de seis meses, estão os de TI e telecom, agronegócio, alimentos e bebidas, extração mineral, serviços de educação, serviços às empresas, metalurgia e química, higiene e limpeza. Já o grupo de setores que acreditam numa recuperação mais lenta, em até 18 meses, é composto por comércio, transporte e logística, turismo, hotelaria e lazer, veículos e autopeças, associações e ONGs, bens de consumo, construção, saúde e farmacêutica”, destaca Ronaldo Fragoso, sócio líder da Deloitte para as Respostas de Negócios à COVID-19.
Tecnologias e meios digitais
Fato é que, diante da necessidade de uma mudança brusca no regime de operação – com a virtualização radical do trabalho em muitos casos –, as empresas precisaram responder com muita rapidez às novas demandas tecnológicas. A adaptação para o uso de novas plataformas digitais e/ou o fortalecimento das que já eram empregadas tem sido fundamental para apoiar a manutenção das atividades para grande parte das empresas participantes. Paralelamente, a forma e a força de trabalho têm sofrido ajustes para também se adequar a essa revolução. A necessidade de colaboração e trabalho em rede, a fusão entre gerações, o pensamento ágil, a experimentação e o erro como feedback que retroalimenta a inovação, colaboradores e consumidores cada vez mais questionadores são realidades em franca expansão, e que deverão ser cada vez mais vistas no pós-COVID.
Todos esses movimentos acabam por demandar mudanças, por vezes, radicais na cultura das empresas, e esse costuma ser o ponto nevrálgico dessa nova dinâmica: “O maior causador de insucessos em estratégias de transformação digital é a resistência às mudanças culturais”, alerta Robson Bessa, fundador da UNBLOCK.IT, boutique especializada em estratégias de transformação de negócios. Por conta disso, uma das áreas-chave para catalisar a transformação digital e de cultura digital é o RH, que precisa se reinventar e aprender a ser um RH Digital, agindo como parceiro de negócios da alta gestão e assegurando uma transição cultural suave e perene.
Finalmente, é fundamental que durante esse processo de readequação as empresas entendam muito bem o papel e façam o uso correto da tecnologia, a fim de que ela funcione como uma valiosa ferramenta não só para a transição, como também de apoio para a empresa enfrentar com eficiência e eficácia a nova realidade no pós-crise. E entre as tecnologias propulsoras da transformação digital está a Inteligência Artificial (IA), que pode ser usada em toda a cadeia de valor da companhia, da gestão de operações e das áreas até a gestão da experiência do cliente. E alguns fatores fundamentais para a propulsão da IA nesse cenário futuro deverão ser a explosão de geração e uso massivo de dados, os múltiplos avanços no desenvolvimento de algoritmos avançados, o Cloud Computing (ou “Computação em Nuvem”) e as aplicações Open Source, um software de código aberto, que possibilita que usuários interajam com a ferramenta e proponham melhorias e adaptações aos sistemas.
Segundo Bessa, para vencer os desafios do pós-pandemia será necessária também a perfeita compreensão do Big Data e o domínio dos avanços em Deep Learning, que permite uso de tecnologias de reconhecimento de voz, visão computacional, processamento de linguagem natural, entre outros, por meio do pleno e adequado uso de algumas ferramentas, tais como a Robotic Process Automation (RPA), potencializada pela IA; as assistentes virtuais, como a BIA (Inteligência Artificial do Bradesco); a Internet das Coisas (IoT), como nos wearables e carros autônomos; e, ainda, as realidades aumentada e virtual. “E todo esse avanço no uso da IA só será possível em função de três recursos que já avançaram muito e continuam evoluindo: capacidade computacional, processamento de dados e conectividade”, finaliza o fundador da UNBLOCK.IT.
E como será o “Novo Normal” de sua empresa? Qual o cenário que você vai viver?