Embora ainda pouco difundido no Brasil, o uso de estruturas de aço vêm avançando de forma incontestável como uma solução estrutural para os mais diversos tipos de construção.
Na construção industrializada, as características do aço permitem uma infinidade de vantagens e benefícios. Entre elas, o uso da tecnologia contribui para a expressividade estética, o aumento da área útil, a flexibilidade em ampliações ou reformas, o alívio de carga nas fundações e a precisão construtiva. Além disso, as estruturas metálicas são menos agressivas ao meio ambiente, e seu uso na construção pode proporcionar uma redução de até 40% no tempo da obra, quando comparado com os processos convencionais.

E, embora ainda longe de atingir o estágio considerado “ideal” de sua utilização no Brasil, as perspectivas para o futuro são boas, alicerçadas não só pelos investimentos privados, como também pela expectativa do início de obras de infraestrutura a partir de 2021. Essa é a leitura de Alexandre Queiroz Schmidt, presidente da Associação Brasileira da Construção Metálica (ABCEM), que, nesta entrevista exclusiva à Revista Siderurgia Brasil, fala, entre muitas outras coisas, dos desafios e do universo de possibilidades que as estruturas metálicas podem e, seguramente, vão oferecer a partir de agora por aqui no âmbito da construção industrializada.
Siderurgia Brasil: Alexandre, embora ainda seja cedo para fazer o balanço de 2020, o que você pode nos adiantar sobre o comportamento do setor neste ano de crise? E quais as perspectivas para 2021?

Alexandre Queiroz Schmidt: Para termos uma base de comparação de 2020, julgo necessário retroagir à análise do ano de 2019, que, sem dúvida, foi melhor que 2018, puxado pelo segmento de torres de eletrificação, enquanto que o setor de estruturas metálicas teve sua retomada no 2º semestre. Obras da iniciativa privada foram as responsáveis por essa retomada. Já em 2020, ainda influenciado apenas por essas obras, o setor de estruturas metálicas continuou a crescer, e está trabalhando em regime de full capacity. As perspectivas para 2021 são boas, ainda alicerçadas pelos investimentos privados. Mas trabalhamos também com a expectativa do início de obras de infraestrutura. Tudo isso, naturalmente, associado à perspectiva do controle da pandemia da COVID-19, deve melhorar o ambiente.
Ao longo dos últimos anos, qual a dinâmica de penetração de utilização das estruturas metálicas nos sistemas de construção industrializada?
Segundo dados da Pesquisa Industrial Anual (PIA), realizada pelo IBGE, especificamente em relação às estruturas de aço – incluindo defensas, torres e pórticos –, o setor cresceu 10,65% ao ano entre 2005 e 2013, e alcançou 2 milhões de toneladas em 2014. Todavia, de 2014 para 2018, o setor sofreu queda de 10,2% ao ano, caindo 1,3 milhão de toneladas.
Diante desse cenário, quais foram – ou continuam sendo – os principais desafios para o crescimento do setor?
Bem, o principal gargalo para o incremento das estruturas de aço no Brasil é a questão da tributação, que onera a construção industrializada, principalmente devido à incidência do ICMS, que, na comparação com os sistemas moldados in loco, é muito maior. Porém, há outros complicadores, associados ao fato de o Brasil ser um país com dimensões continentais. Nas regiões Norte e Nordeste, por exemplo, a distância para aquisição de insumos e a carência de especialistas, tanto para projetar estruturas em aço quanto para sua execução, são fatores que restringem sua maior utilização.
De alguma forma, isso quer dizer que, no âmbito dos projetos, há problemas de interação?
O aço é a linguagem que tem gramática a ser executada com os recursos da arquitetura e da engenharia. Ainda no projeto, durante o estudo de viabilidade e a definição da concepção, a parceria e integração entre arquitetura, engenharia e fabricação são essenciais. Estrutura metálica requer planejamento. É preciso dar ênfase a esse tempo. Então, o projeto deve ser discutido em conjunto com o incorporador, com o arquiteto, com engenheiro e com o fabricante de estruturas para delinear o melhor impacto na urbanização, no meio ambiente, bem como, é claro, considerar a questão de custo, do ponto de vista de ganho com a maior velocidade na execução. Dentro desse contexto, a ABCEM em parceria com algumas instituições, tem oferecido cursos de capacitação e extensão, além de uma série de cursos online, apresentando a esses profissionais, as possibilidades e vantagens do uso da construção industrializada.

Pode-se arriscar dizer que isso deriva, eventualmente, de um problema ou questão de formação profissional com raízes, digamos, “acadêmicas”?
Veja bem, nas universidades a concentração do ensino no concreto armado tem sido alterada gradativamente pela introdução de novas tecnologias construtivas, advinda da demanda dos próprios estudantes de arquitetura e de engenharia. Naturalmente, há também linhas de pesquisa avançada em mestrado e doutorado, assim como cursos de pós-graduação na construção metálica. Mas ainda falta trabalhar mais a concepção de sistemas estruturais, ainda faltam profissionais para o cálculo e dimensionamento de projetos em aço. Mas entidades como a ABCEM, o Centro Brasileiro da Construção em Aço (CBCA) e a Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (ABECE) trabalham no sentido de levar informação para profissionais do setor. Então, hoje, quem quer se especializar consegue, porque há ampla oferta de cursos, palestras e publicações no mercado.
Embora cercada de atributos positivos, a utilização de estruturas metálicas na construção industrializada ainda é muito baixa no Brasil. Alguns analistas creditam esse problema à existência de uma visão puramente “racionalista” no âmbito das obras. Como você analisa esse posicionamento?
Na verdade, isso não existe. O que existe é a constatação de que as estruturas metálicas proporcionam melhorias significativas de processos em sistemas construtivos que permitem maior produtividade.
Mas, não existe ainda um certo preconceito contra elas no Brasil, devido à questão dos preços mais elevados envolvidos no processo?
Não. Primeiro porque a escolha da melhor solução estrutural deve ser feita com base no conhecimento dos sistemas e de suas características, não devendo ser influenciada, portanto, por paradigmas, preconceitos e desconhecimentos. E, segundo, porque, com uma análise incompleta e distorcida, podemos perder os benefícios de uma boa solução. O custo das estruturas de aço é bastante competitivo, tendo em conta a tecnologia usada quando de sua aplicação, seu custo na obra e a redução de tempo de construção proporcionado. Durante a pandemia, aconteceram bons exemplos da industrialização e da pré-fabricação demonstrando o potencial do processo de fabricar antes e montar no canteiro, com ganho de tempo, economia de materiais e menor impacto ambiental. O uso de light steel framing, por exemplo, tem possibilidades reais de crescimento rápido. O sistema de construção a seco combina perfis leves de aço com placas pré-fabricadas disponíveis no país que permitem construção de paredes customizadas. Entretanto, entendo que a assimetria tributária nos sistemas industrializados no país é contraditória para quem precisa construir rápido e com qualidade. Com os impostos, que aumentam em mais de 40% os custos de produção, o país perde competitividade em relação a outros países.
Finalmente, como você avalia o estágio atual da oferta dos produtos e soluções do setor siderúrgico?
Não há restrições técnicas, legais ou de disponibilidade de materiais e tecnologia. No Brasil, até a década de 1980, o uso de estruturas metálicas era pouco conhecido. Na área da construção residencial, o assunto nem era cogitado por arquitetos e engenheiros, e muito menos pelos proprietários. Fatores histórico-culturais decorrentes da falta de produtos siderúrgicos adequados daquela época colaboraram com essa realidade. Dessa forma, e pelo histórico do uso mão de obra barata no país, tipicamente usada nas construções ditas convencionais, o concreto se tornou mais tradicional na construção civil brasileira. Entretanto, o uso de estruturas de aço vêm avançando de forma incontestável como uma solução estrutural para os mais diversos tipos de construção, quer sejam industriais, comerciais ou residenciais.