Empresários reunidos na sede da FIESP comentaram sobre a carga tributária, o tarifaço americano e sugeriram um pacto nacional entre todas as instituições para garantir competitividade e empregos.
Henrique Pátria
Era para ser uma noite de celebração, quando o Sicetel e a Abimetal lançaram a 14ª edição de seu Anuário, em um Jantar Solene que já se tornou tradição entre os associados da entidade que representa empresas diretamente ligadas à siderurgia nacional.
No entanto, a ocasião ficou marcada pelo discurso do presidente Ricardo Martins, que expôs a profunda preocupação que paira sobre o setor.
Segundo ele, não apenas a categoria que representa, mas toda a indústria nacional, carece de perspectivas de prosperidade e, em alguns casos, até mesmo de manutenção das posições que hoje ocupa. Em sua avaliação, os industriais brasileiros estão abandonados à própria sorte, sem qualquer iniciativa concreta dos poderes constituídos em sua defesa.


Martins reforçou uma mensagem também presente no Anuário: “Infelizmente, sobra ao governo adotar a saída mais fácil, avançando em sua sanha arrecadatória e aumentando impostos para tentar alcançar a meta de superávit fiscal, o que sequer tem conseguido. Nunca é demais reafirmar que o governo brasileiro é esbanjador: gasta mais do que pode — e gasta mal”. Diante da atual desorganização política, completou, os representantes eleitos não vêm cumprindo o papel esperado deles.
Na mesma linha, o presidente do Ciesp, Rafael Cervone, relatou as dificuldades enfrentadas em uma missão empresarial aos Estados Unidos, da qual participou recentemente, onde tentou dialogar com autoridades locais para buscar soluções ao “tarifaço” imposto contra produtos brasileiros. Para ele, é hora de unir esforços e criar um corpo diplomático empresarial independente da política, já que não se pode esperar soluções vindas das autoridades nacionais. “Não há diálogo, e mais grave ainda: falta vontade política para que ele exista e produza resultados práticos”, destacou.

Sobre o lançamento do Anuário
Na mensagem de abertura, o presidente recorda que, após a aprovação da Reforma Tributária e de alguns marcos regulatórios, seria esperado avançar na regulamentação dessas medidas, discutir o desenvolvimento econômico, promover a reforma administrativa e explorar novos mercados como o de carbono, entre outras inovações para a indústria.
Entretanto, um verdadeiro “tsunami” abalou o comércio global com a adoção, pelos Estados Unidos, de medidas protecionistas voltadas a resguardar seus interesses, reduzir o déficit e fortalecer sua indústria local. O impacto foi imediato: instalou-se uma desordem comercial internacional sem precedentes, cujo reordenamento se mostra doloroso e complexo. Nesse contexto, observa-se uma intensificação brasileira das relações comerciais com a China, alimentada por divergências ideológicas e políticas. A chegada de produtos siderúrgicos chineses, em condições de desigualdade tem sufocado a indústria nacional.
As novas regras impostas pelos norte-americanos certamente trarão grandes prejuízos aos associados da entidade. Em 2024, as exportações para os EUA representaram 14,5% do total, enquanto as importações corresponderam a 5,7%. Agora, 103 produtos de associados foram atingidos, desde agosto, por tarifas de 50%, o que já provoca o fechamento de importantes canais comerciais.

Martins ressalta que o Brasil poderia reforçar seu papel estratégico em áreas como sustentabilidade e tecnologia, mas, para isso, é preciso enfrentar novamente o desafio do “Custo Brasil”, que compromete o ambiente econômico e retira competitividade das empresas. Para ele, o governo insiste em priorizar o aumento de impostos, em busca de uma meta de superávit considerada inalcançável. “Nunca é demais reafirmar que o governo brasileiro é esbanjador: gasta mais do que pode — e gasta mal”, reiterou.
Ele acrescenta que, inspirando-se em medidas do governo Trump, o Brasil deveria combater a invasão de produtos que enriquecem outros países e eliminam empregos locais. Se há mérito na iniciativa norte-americana, é o de recolocar a indústria como protagonista do desenvolvimento econômico e social. A reindustrialização, defende Martins, devolveria ao empresário o papel de empreendedor, mas exige condições adequadas para avançar.
Concluiu conclamando a união da sociedade, do Executivo, do Legislativo e do Judiciário em torno de um pacto de crescimento, no qual não haja vencedores ou vencidos, mas um projeto comum de futuro para o país.
O Anuário traz em seu conteúdo, uma ampla análise da siderurgia nacional e internacional, avaliando os impactos da nova política comercial americana e sugerindo medidas que o governo brasileiro poderia adotar para mitigar custos tarifários. Também apresenta o desempenho do setor, com o perfil das empresas associadas, cenários de mercado e áreas de interesse da categoria.
As entidades reúnem cerca de 70 empresas, que representam 20% de um universo de aproximadamente 350 fabricantes, entre unidades independentes e siderúrgicas verticalizadas, responsáveis por cerca de 35 mil empregos. Em 2024, essas associadas transformaram 3,1 milhões de toneladas, o que representou crescimento de 7,7% em relação ao ano anterior e recuperou dois anos seguidos de queda.
Especificamente, a produção de aços longos atingiu 2,4 milhões de toneladas, alta de 7,1% frente ao ano anterior, enquanto os aços planos somaram 624 mil toneladas, crescimento de 10,2% em relação às 566 mil toneladas de 2023.










