Desaceleração da economia brasileira e falta de regras claras para o desenvolvimento das operações preocupam o empresariado. Mas a única alternativa é seguir em frente.
Marcus Frediani
Desaceleração da economia brasileira e ausência de regras claras para o avanço das operações preocupam o empresariado. Ainda assim, a alternativa é seguir em frente.
O clima da Coletiva de Imprensa da Abimaq, realizada em 28 de janeiro, em sua sede, em São Paulo, foi de comemoração. A entidade anunciou que, em 2025, as vendas da indústria de máquinas que representa cresceram 7,3% em relação a 2024, refletindo a reação dos investimentos em bens de capital no país. Sem dúvida, uma evolução relevante, com viés de retomada diante das circunstâncias atuais, embora mantendo o Triênio 2023-2025 ainda distante dos resultados do “Triênio de Ouro” de 2010-2013, quando as condições de mercado eram, digamos, menos adversas. Essa cifra levou a receita líquida do setor no passado a alcançar apenas R$ 299 bilhões.

Porém – e parece que sempre há um “porém” nos anúncios de recuperação setorial no Brasil –, fatores como a manutenção dos juros em patamar elevado no 2º semestre do ano passado e no início de 2026, estimulando a queda da confiança e, por consequência, da disposição para investir, continuarão a fazer efeito. Isso já impacta as projeções para este Ano Novo, rebaixando-as a um crescimento mais modesto de 4% nas vendas totais, entre mercado interno e exportações.
“A tendência é que essa desaceleração prossiga, sobretudo diante do elevado patamar da Selic, somado à perda de fôlego da atividade econômica e às dificuldades para exportar”, resume Maria Cristina Zanella, diretora de Economia da Abimaq, ressaltando que o bom desempenho foi impulsionado principalmente pelo mercado doméstico.
Nessa dinâmica, as vendas internas subiram 8,4%, somando R$ 221,7 bilhões. As exportações em dólares, apesar dos entraves citados por Zanella, reagiram e avançaram 5%, para US$ 13,8 bilhões, com embarques sobretudo aos vizinhos da América do Sul, como compensação ao impacto do tarifaço nos Estados Unidos. O movimento foi acompanhado pelos investimentos em máquinas e equipamentos no Brasil, que cresceram 7,9%, para R$ 411 bilhões, incluindo as importações, cujo aumento, em dólares, foi de 8,3%, para US$ 32,2 bilhões. “Entretanto, na melhor das hipóteses, em 2026 deveremos ter um nível de exportações semelhante ao de 2025”, projeta a executiva.
No mercado doméstico, as importações – que no ano passado representaram expressivos 46% do consumo nacional de máquinas, com o avanço persistente da concorrência chinesa, devem continuar como ameaça. Ainda assim, a Abimaq aposta em reação, prevendo crescimento de 5,6%, sustentado por possível aumento de pedidos do setor de infraestrutura, impulsionado pela perspectiva de mais obras públicas em ano eleitoral.
Por outro lado, há um fator novo que anima as expectativas externas. A recente assinatura do Acordo Mercosul–União Europeia pode reabrir a agenda de inserção internacional das máquinas e equipamentos brasileiros, estimulando a modernização produtiva, com potencial de ampliar mercados e melhorar o ambiente regulatório. Para isso, porém, é preciso evitar armadilhas da defesa comercial, muitas vezes simplificadas como protecionismo global.
Na avaliação de Gino Paulucci Jr., presidente do Conselho de Administração da Abimaq, a defesa comercial deve ser vista como mecanismo de correção de assimetrias. “Garantir competitividade não significa fechar o mercado. Trata-se de assegurar condições mínimas de simetria para que a abertura seja sustentável. Para competir lá fora, é preciso antes sobreviver aqui dentro. O setor de máquinas e equipamentos tem papel estratégico na cadeia industrial, como difusor de tecnologia e produtividade. É vital que as políticas de comércio exterior considerem o equilíbrio entre o custo dos insumos e a competitividade do produto final, evitando que medidas em uma ponta prejudiquem a capacidade exportadora da outra. Sem equilíbrio competitivo, não há acordo que nos salve”, assevera.

RESULTADO “NOS TRILHOS”
Quem também comemora resultados positivos é o Departamento Ferroviário do Simefre, que registrou acréscimo nos volumes. Em 2025, foram entregues 1.700 vagões, alta de 10% sobre 2024 (1.547), e 66 locomotivas, ante 54 no ano anterior, um crescimento de 22%. No segmento de passageiros, foram entregues 122 carros para a linha 6 do Metrô-SP, acrescidos de volume relevante de exportações para Chile, Taiwan e Romênia.
As perspectivas são ainda melhores para 2026: “Estimamos a entrega de 1.900 vagões de carga, sendo 140 para exportação, 72 locomotivas e 193 carros de passageiros, incluindo a linha 6 do Metrô-SP, além de bom volume para o Chile e novamente Taiwan”, explica Vicente Abate, diretor de Ferrovias da entidade.
Em paralelo, ele informa que, no âmbito doméstico, a Frente Parlamentar para o Fortalecimento da Indústria Ferroviária Brasileira está ativa, com visitas ao Governo Federal e ao Congresso. A indústria foi incluída no Fundo Clima e houve ações junto à ABDI para inseri-la no programa Renovar.


“Em especial, o setor acompanha de perto os sistemas metroferroviários para identificar oportunidades, assegurando que a indústria brasileira continue a se desenvolver e gerar emprego e renda. Porém, nossa vulnerabilidade segue ligada às investidas agressivas da indústria chinesa”, pontua Abate.
A preocupação é compartilhada por Massimo Giavina, vice-presidente do Simefre. “A forte presença chinesa decorre da falta de regras adequadas, como financiamento e inclusão da indústria nacional nas concorrências. Os programas do governo, embora relevantes, ainda são incipientes na política de transporte de passageiros e carecem de regramentos operacionais no transporte de carga, via ANTT”, afirma. “Esse é o foco do trabalho da entidade, em parceria com a Abifer e a Frente Parlamentar, para demonstrar aos órgãos federais e ao Ministério da Fazenda o caráter estratégico da indústria ferroviária para o Brasil”, completa.

Vicente Abate, também presidente da Abifer, diz que o cenário poderia ser melhor com igualdade frente à concorrência externa. “Os chineses são agressivos comercialmente, pois suas companhias têm poder econômico para isso”, afirma, citando a disputa pelos 44 trens do Metrô de São Paulo, vencida pela chinesa CRRC. Para atender ao contrato, a empresa produzirá parte dos trens em Araraquara, em área da Hyundai Rotem, com investimento de R$ 50 milhões e geração de 100 empregos, cumprindo índice de nacionalização exigido.










