Marcus Frediani
A sucata de aço é um pilar estratégico para o Brasil ao integrar sustentabilidade ambiental, desenvolvimento econômico e competitividade industrial. Ela reduz a dependência de extração mineral, economiza energia e água e posiciona o país globalmente na transição para a descarbonização e economia circular.

O tema, aliás, fez parte do importante conteúdo apresentado pelo
Instituto Nacional de Reciclagem (INESFA) durante sua participação
oficial, em novembro do ano passado, na COP30, o maior fórum
global dedicado a discutir as mudanças climáticas sob o foco da
sustentabilidade. Para Clineu Alvarenga, presidente da entidade de
classe, esse evento representou uma importante oportunidade
para destacar a reciclagem como um vetor capaz não só de fortalecer
o desenvolvimento econômico, mas também de contribuir
decisivamente para a proteção ambiental.
ECONOMIA VERDE
Com efeito, a reciclagem é a rota mais rápida, barata e direta para o desenvolvimento sustentável do Brasil. E isso ao longo de toda a trajetória de mais de 70 anos de atividade no país, expondo benefícios claros como redução da emissão de CO2, economia de energia e água, e preservação dos recursos naturais.
Contudo, apesar de essa agenda ter sido recebida com grande entusiasmo na COP30, o setor ainda enfrenta vários e sérios obstáculos em seu caminho, desde a política relacionada aos catadores e às cooperativas, até aquela que envolve os processadores, que está longe de ser homogênea e de atingir um estágio ideal. O principal deles é o sistema tributário brasileiro, em que pese a PEC 34/2025 – a chamada “PEC da Reciclagem” –, atualmente em fase de montagem de Comissão Especial na Câmara do Deputados. “Porém, infelizmente o governo já se posicionou contrário à PEC, devido ao impacto fiscal que ela poderá ocasionar. Mas estamos mantendo reuniões com a Receita Federal para encontrarmos um meio termo na tributação que contemple a todos”, mantém a esperança Alvarenga.
Com efeito, apesar de todos os atributos positivos da reciclagem de sucata de aço, o setor responsável por ela enfrenta esse grande obstáculo que pode comprometer seu desenvolvimento. O presidente do INESFA é categórico ao afirmar que a recente aprovação da Reforma Tributária – que deveria simplificar e modernizar a cobrança de impostos – acaba repercutindo como uma ameaça ao favorável e inteligente processo de reutilização da liga. E isso porque a RT tende a sobretaxar materiais reciclados, dificultando a competitividade frente aos insumos virgens.
“Esse contrassenso trava o progresso da ‘Economia Verde’ no país, alerta Alvarenga. E uma das consequências disso é que o discurso ambientalista do governo perde consistência diante dessa política tributária, pois a reciclagem é a atividade que mais contribui para o meio ambiente. Em paralelo, tributação elevada desestimula as empresas recicladoras, e agrava a vulnerabilidade dos catadores, mais de um milhão de pessoas que dependem diretamente dessa atividade para sua sobrevivência, a maioria deles atuando na informalidade. E a formalização dessa base ainda não cresceu exatamente devido à situação tributária no Brasil.
O PAPEL DAS EXPORTAÇÕES
Apesar dos desafios, o setor de sucata ferrosa vem apresentando resultados expressivos. Porém, isso não se faz sentir exatamente nas vendas realizadas para o mercado doméstico – cujos valores exatos ou financeiros detalhados não são divulgados pelo INESFA –, até porque se estima que 94,9% do volume da sucata ferrosa recuperada no Brasil é reaproveitada pelas próprias usinas siderúrgicas nacionais, e ainda pelas fundições, sendo que a estimativa de absorção desse ciclo fique entre 8 e 9 milhões de toneladas anuais. Ou seja, as vendas externas são apenas de volumes excedentes não comercializados no Brasil, colocados para o mercado internacional.
Assim, no cenário das vendas evolução mais sensível vem das exportações. Prova disso é que as exportações dela bateram recorde no ano passado, com a comercialização de 885.732 toneladas, um aumento de 28,2% em relação ao total de 2024. E as vendas externas em 2025 superaram em 10,7% o recorde anterior, de 2023, quando chegaram a 800 mil toneladas. Apenas em dezembro do ano passado, as exportações somaram 74.690 toneladas, incremento de 75% em relação ao mesmo mês de 2024, com 42.672 toneladas, segundo dados divulgados pela Secretaria de Comércio Exterior, do Ministério da Economia.
E os resultados do setor registrados em março de 2026 foram emblemáticos, quando o volume de sucata ferrosa exportada foi de 93.415 toneladas, um aumento de 52% em comparação ao mesmo mês de 2025, quando atingiram 61.484 toneladas, segundo os dados divulgados pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério da Economia. E isso fez que acumulado de janeiro a março, as vendas externas neste ano chegassem a 236.661 toneladas, uma alta de 32,5% em relação ao 1º Trimestre de 2025, que apresentou um total de 178.583 toneladas.

VER PARA AGIR
Cauteloso, embora esses números chamem a atenção, o presidente do INESFA afirma que eles possam ser um reflexo direto da preocupação do setor com eventuais mudanças no PIS/Cofins, o que levou à antecipação de exportações desses materiais. E isso, naturalmente, deixa no ar a dúvida de saber se esse se trata de um movimento pontual, ou de uma nova dinâmica ou tendência para um futuro, digamos, menos auspicioso, uma vez que essa cobrança pode derivar para a bitributação da economia circular, que, aliás, assim como a indústria, já paga tributos em etapas anteriores, e não deveria ser taxada novamente no momento da venda da sucata ferrosa.
Então, a única saída tangível é monitorar de perto o que vai acontecer. “Para 2026, a perspectiva está direcionada integralmente à Reforma Tributária. Precisamos do apoio de todos para a aprovação da PEC 35/2025, porque ela representa uma evolução mundial no entendimento da tributação, para que todos ganhem cada vez mais quando se recicla”, finaliza Clineu Alvarenga.







