Rodrigo de Barros*
Em meio às discussões da escala 6×1, o pesquisador e doutor Rodrigo de Barros defende que a criatividade, principal matéria-prima da inovação, depende diretamente das capacidades de aprendizagem, experimentação e desenvolvimento humano. Segundo ele, menos horas de trabalho podem significar aumento de produtividade.
Em uma pesquisa realizada na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) para o doutorado, a pesquisa chegou a um modelo que avalia o impacto direto da “Pressão temporal e criatividade”. Além disso, o estudo mostra que ambientes de medo e insegurança forçam as pessoas a se concentrarem em soluções de curto prazo em detrimento da inovação de longo prazo.
A tese resultou na criação de um protótipo de Sistema Web MACI, que permite realizar diagnósticos automatizados e recomendar intervenções para o RH e lideranças. “Faço palestras com as maiores empresas do Brasil e toda semana ouço relatos de falta de inovação. Vivemos uma crise criativa. Empresas com processos criativos bem estruturados faturam até 2,4 vezes mais, já identificaram pesquisas internacionais”, diz.
A pesquisa analisou um portfólio inicial de 1004 artigos científicos globais. Através de critérios, a pesquisa filtrou os 101 artigos mundiais de maior impacto (estado da arte) para construir o modelo.
“Sempre que o sistema identifica um componente com nota baixa (abaixo de 3,5), ele cruza os dados com a literatura científica e recomenda intervenções precisas e personalizadas para o RH e para a liderança atuarem”, afirma o pesquisador.
A inovação, segundo Rodrigo, não nasce da repetição contínua de tarefas, mas da capacidade das pessoas de construir novas conexões cognitivas, resolver problemas complexos e produzir soluções originais.
Essa perspectiva encontra respaldo em estudos internacionais conduzidos em países como Islândia, Japão, Nova Zelândia e Reino Unido, onde experiências com redução da jornada de trabalho demonstraram ganhos consistentes de produtividade, satisfação dos colaboradores e desempenho financeiro. Em muitos casos, trabalhar menos não significou produzir menos — pelo contrário, significou produzir melhor.
“Um relatório do Fórum Econômico Mundial indica que promover o pensamento criativo será o foco de 8% das iniciativas de treinamento e aprimoramento (upskilling) das empresas entre 2023 e 2027”, diz.
Segundo Rodrigo de Barros, esse fenômeno pode ser explicado por um aspecto frequentemente negligenciado pelas organizações: o funcionamento biológico do cérebro humano.
“A criatividade não surge sob pressão permanente. Ela depende de processos de aprendizagem, reflexão e elaboração que exigem tempo e condições cognitivas adequadas”, demonstra a pesquisa.
De acordo com ele, na prática, isso significa que jornadas excessivas, interrupções constantes e hiperconectividade reduzem exatamente a capacidade que as empresas mais precisam desenvolver: a de inovar.
“Segundo o Fórum Econômico Mundial, espera-se que a automação do raciocínio e da tomada de decisões nas empresas aumente em 9% até 2027, o que reduz a vantagem do pensamento puramente analítico e eleva a necessidade do pensamento criativo humano. A disparidade de importância entre o pensamento analítico e o criativo já diminuiu para apenas 21%”, afirma
Nas últimas duas décadas, a transformação digital trouxe ganhos extraordinários de velocidade. Em compensação, eliminou praticamente todas as barreiras entre vida profissional e pessoal. Aplicativos corporativos funcionam vinte e quatro horas por dia. Reuniões ocupam espaços antes destinados à reflexão. Mensagens instantâneas fragmentam continuamente a atenção.
“O resultado é um ambiente de trabalho marcado pela sobrecarga cognitiva. Sob elevados níveis de estresse, o organismo aumenta a produção de cortisol, hormônio relacionado aos mecanismos de sobrevivência. Embora essencial em situações de risco, sua presença contínua prejudica funções executivas fundamentais para o desempenho profissional, como planejamento estratégico, memória de longo prazo, aprendizado e pensamento criativo”, diz.
Segundo ele, empresas que implementaram semanas de quatro dias ou jornadas reduzidas observaram diminuição dos índices de absenteísmo, menor rotatividade, redução de erros operacionais e aumento do engajamento das equipes. “Em vez de simplesmente reduzir horas trabalhadas, essas organizações passaram a redesenhar seus processos, eliminando reuniões desnecessárias, simplificando fluxos de decisão e protegendo períodos de concentração profunda”, afirma.
A pesquisa reforça essa mudança ao mostrar que inovação não pode ser compreendida apenas como investimento em tecnologia. “Organizações internacionais como a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) destacam que empresas inovadoras dependem, sobretudo, do desenvolvimento contínuo das capacidades humanas de aprendizagem e resolução criativa de problemas”, diz.
De acordo com Rodrigo, esse entendimento também aparece entre as recomendações da consultoria McKinsey. Em estudo citado pelo pesquisador, a consultoria demonstra que empresas que dominam os chamados “oito essenciais da inovação” apresentam desempenho econômico significativamente superior às concorrentes, podendo alcançar lucratividade até 2,4 vezes maior.
Entre esses fatores estão mobilização de pessoas, aprendizagem contínua, experimentação e desenvolvimento de ambientes favoráveis à inovação — todos dependentes da criatividade dos colaboradores.
Para Rodrigo de Barros, esse cenário exige uma mudança profunda na forma como gestores compreendem produtividade.
Em vez de medir exclusivamente horas trabalhadas, torna-se necessário avaliar a capacidade das equipes de aprender, adaptar-se e construir soluções inovadoras. Isso implica criar espaços para concentração, preservar momentos de descanso, reduzir interrupções e reconhecer que criatividade não surge em ambientes permanentemente acelerados.
A discussão ganha ainda mais importância diante do avanço da inteligência artificial. À medida que atividades repetitivas passam a ser automatizadas, cresce o valor das competências exclusivamente humanas, como criatividade, pensamento crítico, colaboração e capacidade de formular novas perguntas.
“Não por acaso, o Fórum Econômico Mundial aponta o pensamento criativo como a segunda habilidade mais importante para o futuro do trabalho, atrás apenas do pensamento analítico. Essa tendência indica que o diferencial competitivo das empresas não estará na quantidade de horas que seus profissionais permanecem conectados, mas na qualidade das ideias que conseguem produzir”, diz
Segundo ele, nesse contexto, reduzir a jornada deixa de ser apenas uma pauta trabalhista para se transformar em uma estratégia de negócios. Organizações que protegem o tempo de recuperação física e mental de seus colaboradores aumentam sua capacidade de inovação, fortalecem o engajamento e constroem equipes mais preparadas para enfrentar problemas complexos.
Para Rodrigo de Barros, o futuro da produtividade não será definido pelo volume de trabalho executado, mas pela inteligência com que as empresas desenvolvem o potencial criativo de suas pessoas. Em uma economia baseada no conhecimento, investir em descanso, aprendizagem e criatividade pode ser a decisão mais rentável que uma organização é capaz de tomar.
Rodrigo de Barros é pesquisador e doutor e a pesquisa foi realizada uma na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).
Fonte: Corporate Relações Públicas







