Pela sua vocação industrial, precisão, velocidade, flexibilidade e capacidade de integração, o aço tem totais condições de exercer papel de protagonismo no futuro da construção industrializada.
Marcus Frediani
A industrialização da construção civil brasileira deixou de ser apenas uma alternativa para se tornar uma necessidade. Produtividade, escassez de mão de obra, redução de prazos, sustentabilidade e maior previsibilidade estão entre os fatores que impulsionam esse movimento. Nesta entrevista exclusiva à revista Siderurgia Brasil, Ulysses Barbosa Nunes, diretor-executivo da Associação Brasileira da Construção Metálica (ABCEM) analisa a evolução do setor, os desafios regulatórios e tributários e as perspectivas para o aço e os sistemas industrializados. Confira!

Siderurgia Brasil: Como vem evoluindo a construção industrializada no
Brasil ao longo dos últimos cinco anos?
Ulysses Barbosa Nunes: A construção industrializada vem passando por uma
transformação importante. Industrializar deixou de ser apenas uma alternativa
construtiva para se tornar uma necessidade diante dos desafios de produtividade,
escassez e qualificação da mão de obra, cumprimento de prazos, sustentabilidade,
redução de desperdícios e da pegada de carbono. No segmento de estruturas
metálicas, houve uma recuperação importante após a retração entre 2014 e 2018,
com retomada de volumes e entrada em novos mercados. O mais importante é que
o aço passou a ser considerado em novos segmentos e cada vez mais desde a
concepção dos empreendimentos.
Qual é atualmente a participação da construção industrializada no mercado brasileiro?
Não existe um indicador único e consolidado, porque o conceito engloba estruturas metálicas, concreto pré-fabricado, Light Steel Frame, madeira engenheirada, sistemas modulares, fachadas, painéis e soluções híbridas. Como referência, estima-se que represente menos de 10% do mercado brasileiro da construção. O número revela, sobretudo, o enorme potencial de crescimento, especialmente diante dos desafios de produtividade, mão de obra, prazos e sustentabilidade.
A construção industrializada ainda é mais cara do que a convencional?
Essa relação mudou bastante. Durante muitos anos, a comparação considerava apenas o preço do material ou o custo inicial da estrutura. Hoje, é necessário avaliar o custo global da obra, incluindo prazo, mão de obra, fundações, desperdícios, logística, segurança, qualidade, retrabalhos e antecipação da entrada em operação. Quando analisado dessa maneira, o sistema industrializado torna-se extremamente competitivo. Tempo também é custo.
Entre os tipos de edificações atendidos pelo setor, quais vêm apresentando maiores avanços?
Bem, há uma diversificação muito grande, com presença em torres de transmissão, galpões industriais, mineração, siderurgia, petróleo e gás, papel e celulose, energia, pontes, viadutos e edifícios. Também cresce a área habitacional por meio do Light Steel Frame e a utilização de sistemas híbridos, que combinam estruturas metálicas, concreto pré-fabricado e a já citada madeira engenheirada.
E qual o papel da evolução tecnológica nesse processo?
Digitalização e industrialização caminham juntas. O BIM é fundamental para antecipar decisões, identificar interferências, integrar disciplinas e reduzir improvisações e retrabalhos. A pré-construção também ganha importância, permitindo resolver o máximo possível antes da chegada ao canteiro. Nesse contexto, há grande potencial para a construção off-site e modular, com componentes produzidos em ambientes industriais controlados.
Como você delinearia os principais gargalos para ampliar a participação do aço na construção civil?
Seguramente, entre os desafios enfrentados pelo setor estão o custo do capital, a necessidade de maior previsibilidade dos investimentos, questões tributárias, qualificação profissional, desenvolvimento e atualização das normas técnicas e, principalmente, uma mudança cultural na forma de projetar e contratar. Industrializar não significa simplesmente trocar um material por outro. Significa mudar a maneira de pensar, projetar, fabricar e executar uma obra.
Já que você mencionou a questão dos tributos, quais as perspectivas do setor no que tange às mudanças das novas regras ditadas pela Reforma Tributária?
A expectativa é que a regulamentação assegure isonomia entre a construção industrializada e a convencional. Existe, porém, uma questão que preocupa o setor: pelas novas regras estabelecidas, o fornecimento do produto juntamente com o serviço de montagem pode ter redução de 50% nas alíquotas de IBS e CBS, enquanto o fornecimento do produto com montagem contratada separadamente não recebe a mesma redução. Assim, para a ABCEM, essa diferença precisa ser corrigida para evitar uma desvantagem tributária justamente para modelos que contribuem para a produtividade e a industrialização.
E, ao longo dos próximos anos, quais são as perspectivas para o avanço da construção em aço?
Elas são positivas no médio prazo, embora o cenário econômico exija cautela. Infraestrutura, habitação, logística, energia, indústria e data centers são segmentos com grande aderência às soluções industrializadas. Mais do que estabelecer uma cifra específica para 2026 ou 2027, existem fundamentos para a continuidade do crescimento, principalmente com redução consistente dos juros, manutenção dos investimentos em infraestrutura e melhoria do ambiente fiscal, regulatório e tributário.
Finalmente, qual é a principal mensagem para o futuro da industrialização na construção civil que você poderia deixar?
A industrialização da construção civil brasileira está se consolidando e é um caminho sem volta. O futuro será cada vez mais híbrido, com o uso de estruturas metálicas, concreto pré-fabricado, madeira engenheirada, Light Steel Frame e sistemas modulares trabalhando de forma complementar. Sem dúvida, sustentabilidade, produtividade, redução de desperdícios, menor pegada de carbono, qualidade e previsibilidade serão cada vez mais determinantes na construção industrializada. E o aço, pela sua vocação industrial, precisão, velocidade, flexibilidade e capacidade de integração, tem totais condições de exercer papel de protagonismo nessa transformação.
Resumo: A construção industrializada ganha espaço no Brasil, impulsionada pela busca por produtividade, sustentabilidade, redução de prazos e escassez de mão de obra. Para Ulysses Barbosa Nunes, da ABCEM, o aço deve assumir papel de protagonismo, favorecido pela digitalização, pré-fabricação e avanço dos sistemas construtivos híbridos.
Entre más e boas notícias
A indústria da construção civil segue em ritmo inferior ao registrado no ano passado. Em julho, o índice que mede a evolução da atividade do setor variou apenas 0,1 ponto, para 47,2 pontos. Com isso, o indicador se manteve meio ponto abaixo da média para os meses de julho. Os dados constam na Sondagem Indústria da Construção, acaba de ser divulgada pela CNI), em parceria com a CBIC. E a desaceleração do setor também se reflete na Utilização da Capacidade Operacional (UCO). O indicador, que funciona como um termômetro do ritmo dos canteiros de obras, caiu 1 ponto percentual, para 66%, em agosto. A UCO está 2 pontos percentuais abaixo do patamar observado no mesmo mês do ano passado.
Com isso, os empresários da construção não esperam mudanças significativas nos rumos do setor nos próximos meses. A pesquisa mostra que eles desejam manter o nível de compras de insumos e matérias-primas e o total de empregados a curto prazo. Em relação ao nível de atividade, os industriais projetam leve alta, enquanto esperam queda no lançamento de empreendimentos e serviços.
PERSPECTIVAS DE EXPANSÃO
Porém, nem tudo são espinhos. Segundo os dados da própria CBIC, o mercado imobiliário brasileiro encerrou o 1º Semestre de 2026 com crescimento nas vendas de imóveis residenciais novos, mesmo diante de um cenário de juros ainda elevados. De janeiro a junho, foram comercializadas 226.536 unidades, alta de 5,4% em relação às 214.910 unidades vendidas no mesmo período de 2025.
Para o presidente da CBIC, Eduardo Aroeira Almeida, os resultados mostram a capacidade de sustentação do mercado imobiliário mesmo diante das condições adversas de crédito. “Os números mostram um mercado saudável e estável, com lançamentos e vendas avançando mesmo em um ambiente de juros elevados. A taxa de juros ainda pesa sobre o crédito imobiliário, encarece o financiamento e limita a capacidade de compra das famílias”, afirma. Ainda segundo ele, a manutenção da demanda também evidencia o potencial de expansão do setor com a melhora das condições de financiamento. “Esse desempenho mostra a força do mercado imobiliário e também o potencial de crescimento que existe com condições de crédito mais favoráveis”, acrescenta.








